Adoção

Mãe de dois filhos com Down relata preconceito: 'Tem que respeitar'

FONTE: G1 - Por: Andressa Barboza

Dois filhos com síndrome de Down e um com paralisia cerebral. A rotina da dona de casa Rosana de Araújo, de 53 anos, é marcada por demonstrações imensas de amor, por parte dos filhos, mas também pelos olhares curiosos, e muitas vezes preconceituosos, de quem vê a família durante um passeio pelas ruas de Santos, no litoral de São Paulo.

João Lucas, de 28 anos, e Vicente, de 30, nasceram com síndrome de Down. Já João Matheus, de 17 anos, tem paralisia cerebral. Enquanto João Lucas e João Matheus são filhos biológicos de Rosana, Vicente foi adotado após uma longa batalha judicial. A mãe do garoto, que já frequentava a casa de Rosana anteriormente, morreu atropelada e ele acabou indo parar em um abrigo.

"Quando fiquei grávida do João Lucas, em 1990, o diagnóstico me assustou. Naquela época, não se falava nada sobre isso, e eu simplesmente não sabia do que se tratava. A médica me disse que existia a suspeita de que ele tivesse a síndrome de Down. Na hora eu fiquei aérea, até zonza. Na nossa mente acaba passando o pior", afirma.

Todo o desespero, porém, passou quando Rosana olhou pela primeira vez para João Lucas. "A enfermeira trouxe o meu filho e eu o coloquei na cama. Olhei cada detalhe. Peguei no colo e aquele momento, se eu viver 200 anos, o sentimento vai comigo para a eternidade. Era tanto amor, uma luz tão forte. Foi mágico, todos os pensamentos ruins ficaram para trás".

Após se acostumar e aprender a lidar com a situação do filho, um novo problema apareceu. João Lucas foi diagnosticado com hipotiroidismo e sofria mudanças de humor constantes. Essa situação foi amenizada com o surgimento da amizade entre ele e Vicente. "O Vicente era nosso vizinho. Eles viraram amigos na adolescência, durante um tratamento para deficientes", conta.

Vicente morava com a mãe e, segundo Rosana, pertencia a uma família muito simples. Por ser mais calmo e dois anos mais velho que Lucas, Vicente cuidava bastante do amigo. "Eles viraram irmãos desde o dia em que se conheceram. O Vicente fazia passeios com a gente e almoçava na nossa casa enquanto a mãe dele trabalhava. Era da nossa família já", diz.

A adoção de Vicente aconteceu após a mãe do menino morrer atropelada. Na época, ele foi encaminhado a um abrigo, mas Rosana já sabia que decisão tomaria. "Se eu pudesse, levaria ele direto do enterro para a minha casa, mas ele tinha que ir para um abrigo, pois não tinha nenhum parente. Contratei uma advogada e lutamos para que Vicente se tornasse meu filho também".

A luta de Rosana contra a burocracia no processo de adoção durou um ano e quatro meses. Em 2013, quando o rapaz já tinha 23 anos, ela recebeu o telefonema da advogada com a notícia que ela tanto aguardava. "Ela disse que a guarda havia sido aprovada e que o Vicente estava liberado para vir morar conosco. Foi a minha maior alegria", diz.

Rosana não se importou com todas as dificuldades pelas quais já havia passado com Lucas, já que a adoção de Vicente era mais um presente. "Muitas vezes as pessoas não entendem, mas não fui eu que ajudei ele, ele que me ajudou. Vicente sempre foi muito bonzinho e estimulava o Lucas a ser também. Eles me ajudavam e o Vicente acalmava o Lucas. Ele é um exemplo muito bom", conta.

Apesar de viver harmonicamente, Rosana relata que a família chama a atenção e costuma despertar olhares quando sai na rua. Além dos dois filhos com síndrome de Down, João Matheus tem paralisia cerebral e usa cadeira de rodas. "As pessoas perguntam se eu tenho parentesco com o meu marido, se os 'Downs' são gêmeos, e por aí vai. É uma situação que chama a atenção", fala.

A curiosidade das mães sobre como Rosana cuida dos filhos virou inspiração para que ela escrevesse o livro 'Hoje... Só Gratidão'. "Nele, eu relato as minhas experiências como mãe dos dois. Com eles, sou uma pessoa mais feliz e realizada. Sou uma pessoa melhor e mais calma. É maravilhosa a minha convivência com os meus filhos".

Lucas não desenvolveu a fala, mas isso não é um problema. "Ele fala com gestos. É feliz e bem resolvido. Todos perguntam como eu lidei com tudo isso: dois Downs e um cadeirante. Eu não poderia mudar as condições de nenhum deles, então escolhi conviver da melhor forma possível e proporcionar o desenvolvimento", explica Rosana.

Para Rosana, os filhos deram 'combustível para a vida'. A mãe se diz uma apaixonada por Down. "A convivência é muito boa. Só quem tem um sabe dizer o que é. Aprendemos a não tratar eles com diferença. Meus filhos foram criados para serem independentes. O que interessa para mim não é como a pessoa vai se dirigir ao meu filho. Tem apenas que respeitar", finaliza Rosana.

 

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