Adoção

Adoção: as dificuldades para deixar os abrigos depois dos 18 anos

FONTE: GZH

Jovens são desafiados a enfrentar o mundo fora das casas de acolhimento

O que era para ser apenas uma casa de passagem, para muitos acaba se tornando um local definitivo até o fim da adolescência. Alguns não foram destituídos do poder familiar; outros foram, mas não são adotados. O fato é que são vários os casos de jovens que completam 18 anos ainda morando em abrigos. Depois de tanto tempo nas casas de acolhimento, enfrentar o mundo fora delas é um desafio.

Elisandra, hoje com 19 anos, foi levada com os seis irmãos para um abrigo de Porto Alegre quando tinha seis anos. Eles foram retirados de casa pois a mãe tinha histórico de maus tratos, e o pai era usuário de drogas.

Depois de mais de dez anos vivendo no local, ela não se sentia pronta para encarar sozinha a vida fora dele. Decidiu, então, ir para a República Junto, na Capital, conveniada da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) e que atende jovens maiores de 18 anos.

Hoje, ainda guarda na lembrança os momentos difíceis pelos quais passou quando criança.

“Minha infância foi bem horrível, eu não gosto nem de lembrar, foi um momento muito difícil que eu passei. Fui abusada pelo meu próprio pai aos 12 anos. Eu não quis morar com a minha mãe, pois as vezes meu pai aparece por lá e eu tenho medo. Quando isso aconteceu, ele foi preso, mas já está solto de novo. Minha mãe também sempre nos bateu e eu nunca gostei disso”, lamenta.

Na república há quase dois anos, ela conta que o local tem diversas regras, mas que já aprendeu muitas coisas e que se sente mais preparada para sair de lá.

“Aqui foi uma oportunidade muito grande de me preparar para a vida lá fora, pois sair de um abrigo não é fácil e aqui eles me preparam para quando eu tiver que sair e caminhar com as minhas próprias pernas. Sair direto para a rua é difícil, pois a realidade lá fora é outra, a vida as vezes te derruba. E tu tem que aprender a lidar com isso”.

No fim do ano, Elisandra irá terminar o 3º ano do Ensino Médio e já faz planos de ingressar em um curso de administração de empresas. Ela ainda sonha em obter a guarda dos irmãos e poder dar a eles as oportunidades que os pais não puderam.

Depois do abrigo, o recomeço

Apesar de muitos dos jovens acabarem seguindo outros caminhos - que envolvem até mesmo o crime e as drogas - após a saída das casas de acolhimento, ainda há aqueles que conseguem recomeçar e transformar suas vidas. Mesmo passando por muitas dificuldades durante a infância e a adolescência, Mario Heleno Hovler hoje se orgulha de ter superado os traumas do passado e ter realizado o sonho de se tornar advogado. 

Ele foi abandonado com poucos dias de vida em um orfanato e nunca conseguiu descobrir quem são seus pais biológicos. Aos seis anos, passou por um dos primeiros momentos difíceis, dos muitos que ainda viriam pela frente.

“Eu fui amarrado na cama, um cara me dava socos e tentava botar a genitália dele na minha boca e dizia para eu não reagir. Eu disse 'não, eu morro, mas tu não vai fazer isso'. Aí gritei, gritei, o outro que estava do lado na cama, porque eram camas enfileiradas, acordou, me soltou das cordas e a gente foi para cima do agressor”, lembra ele. Depois disso, ainda viu quatro meninas sendo estupradas no local. 

O advogado conta que ele e os outros abrigados estudavam enquanto estavam no orfanato, mas não iam para aula preocupados em aprender.

“A gente vai preocupado em como vai estar quando voltar. Tinha a regra dos 18 anos. Você tinha que estar pronto para com 18 anos se virar sozinho. Então a nossa preocupação era estar pronto para sobreviver. Eu sempre gostei de estudar, mas não podia. Se tu vai bem no colégio, tu vai chegar em casa e vai apanhar, porque os outros órfãos não vão bem”.

Aos oito anos, ele lembra que fugia todos os dias do abrigo para trabalhar e só retornava no fim do dia. Ele vendia picolé, entregava panfletos e com o dinheiro comprava roupas e comida. Desde lá, nunca parou de trabalhar.

Ao completar 18 anos, já havia juntado dinheiro e se sentia pronto para sair de lá.

“A sensação foi de desafio, de alegria, de ter podido chegar aos 18 anos e sair, porque muitos morreram. Eu tinha um grande amigo meu, que foi até o fim na busca da morte. Os órfãos, eu inclusive, buscam muito a morte. Então, chegar aos 18 já é um prêmio. Se vai dar certo, a gente não sabe. Mas deu”.

No mesmo ano e que deixou o orfanato, fez vestibular para o curso de Direito na Unisinos e passou. E foi aí que deu início a um sonho.

Se formou cinco anos mais tarde e começou a advogar. Com o tempo, foi guardando dinheiro e aos poucos conquistando os seus objetivos. Escreveu o livro Margem, contando sobre sua vida, que também irá se tornar um filme, atualmente em fase de pré-produção.

Como conselheiro da OAB de Torres, onde reside, tenta mudar a lei de adoção. Ele defende, por exemplo, a adoção intrauterina (que ocorre ainda durante a gestação da criança) e a inclusão de órfãos a partir dos 18 anos como beneficiários provisórios do INSS.

Estado tem projeto para auxiliar maiores de 18 anos

A Fundação Proteção Especial (FPE) possui um projeto para os jovens que precisam deixar os abrigos após os 18 anos. O Estado auxilia o acolhido com uma cesta básica no valor de R$ 300 e kits de limpeza por seis meses, que são prorrogáveis por mais seis.

Além disso, o jovem também recebe entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil como incentivo para que possa construir um espaço no terreno de seus familiares, desde que sejam feitos três orçamentos. Em parceria com o Departamento de Habitação (Demhab), também pode ser executada a construção de uma casa de 9 metros quadrados com este valor.

O presidente da FPE, José Luis Barbosa Gonçalves, destaca que até o fim do ano será concluído a reforma na chamada “Casa de Vidro”, em Ipanema, para a instalação do Centro de Formação da Juventude. O objetivo, segundo o presidente, é oferecer cursos profissionalizantes para preparar melhor os jovens para o mercado de trabalho.

“A melhor maneira que estamos desenvolvendo é a gente promover o desligamento através da formação e do treinamento deles. É dar garantia de que ele possa concluir o ensino fundamental e médio. Se não concluir, que possa ter pelo menos ter a condição básica exigida para a realização de um curso técnico profissionalizante, para que ele possa ter uma certa autonomia para se lançar para fora dos muros da fundação, e se lançar como sendo profissional autônomo no mercado ou se habilitar a uma vaga no mercado de trabalho”, explica.

A Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC) possuí convêncio com a República Junto que oferece 24 vagas para jovens maiores de 18 anos. O tempo máximo de permanência na casa é de dois anos. A previsão é de que outras duas Repúblicas, com 12 vagas cada uma, sejam abertas nos próximos meses na Capital.