Adoção

Milhares de crianças e adolescentes que vivem em abrigos têm família

FONTE: G1 

Primeiro esforço das autoridades é fazer com que voltem ao lar de origem. 

Série do JN mostra que falar sobre adoção no Brasil é falar de espera.

Milhares de crianças e adolescentes que vivem em abrigos no Brasil têm família. O primeiro esforço da rede de proteção à infância é fazer com que eles voltem ao lar de origem como manda a lei.

Por isso, falar sobre adoção no Brasil é falar de espera.

O tempo das crianças, das famílias e da justiça é o tema da nossa quarta reportagem especial sobre adoção.

Nos abrigos, o tempo passa diminuindo as chances das crianças que crescem.

“Todo mundo quer ser adotado, ter uma mãe, chamar alguém de mãe”, diz a menina.

Nos lares à espera de filhos, o tempo se arrasta levando junto a esperança.

“É uma gestação longa demais. Você prepara a casa, a família, o ambiente, prepara tudo e não vem, não acontece”, conta José o psicólogo Cunha.

Assim como o dito popular sentencia que só uma andorinha não faz verão, um juiz sozinho não faz adoção. Decidir o futuro de uma criança é um processo complexo, que depende de uma rede de assistência e informação que simplesmente não existe em muitas cidades do Brasil.

Os processos de adoção estão entre os mais de dez mil que a juíza de Matozinhos, em Minas Gerais, tem para cuidar.

“Cíveis, de família, criminais, infância e juventude, ato infracional praticado por adolescente, questões de adoção. Questões de perda de poder familiar, questões de saúde, de violência doméstica, licitação”, conta a juíza Elise Silveira dos Santos.

Como em muitas cidades brasileiras, não existe uma vara exclusiva da infância nem os profissionais necessários.

“No ano passado, nós ficamos sem assistente social em razão da aposentadoria de uma servidora. Um dos entraves que a gente tem para a solução do processo é a falta do defensor público na comarca”, explica. 

E são eles que ajudam os juízes a tomar decisões difíceis como a destituição: tirar definitivamente a criança de uma família para ser adotada por outra.

“Não tem porque negar a uma mãe que foi que o seu poder familiar está suspenso, que vem bater aqui na minha porta e fala assim: ‘Doutora, eu quero meu filho de volta. Eu juro que vou melhorar, eu juro que vou parar de beber’. Então, por que que não vou provocar o poder público pra que faça um tratamento com essa mãe? Por que?”, diz a juíza.

E entre quem quer adotar e ser adotado existe o tempo da assistência social e da Justiça. Há juízes que permitem que a adoção aconteça antes do fim do processo de destituição; outros só deixam que a criança seja adotada depois que a destituição é concluída.

“Como sair desse impasse? O juiz fica nessa situação. Eu tiro a criança da família sem ter dado o tempo necessário para essa família ou não?  Se eu dou tempo para família, posso causar um prejuízo para criança”, explica o desembargador e vice-coordenador Vara da Infância e Juventude de São Paulo, Reinaldo Torres de Carvalho.

“A gente é obrigada a lidar com aquela situação especifica, e aí com a experiência, tentando descobrir qual é o tempo razoável para se tentar aquela reinserção familiar e qual momento de dizer não, daqui para frente não vou mais. Chega, vamos inserir essa criança numa família substituta. Não existe uma regra absoluta”, explica o Juiz da Vara da Infância Protetiva de Guarulhos, Iberê de Castro Dias.

Para ajudar a equilibrar esses tempos já são mais de 140 grupos de apoio à adoção no país.  Eles procuram acompanhar de perto a situação das crianças nos abrigos e a fila de candidatos a adoção nas Varas da Infância. Fazem a chamada busca ativa.

“É muito voltada para essas adoções especiais. Adoção de grupo de irmãos, de crianças um pouco mais velhas ou então de crianças que são doentes. O que a busca ativa faz é catalisar esses encontros. É fazer com que sejam mais viáveis”, explica a presidente do Grupo de Apoio e Adoção Benquerer, Renata Machado Nogueira.

A Renata é advogada, ajuda com as questões jurídicas, é madrinha num abrigo de meninas maiores e tenta aumentar as chances delas de adoção e dar um pouco do que falta.

“Faz falta um abraço, faz falta um carinho. Faz muita falta”, lamenta um adolescente.

É tudo o que quatro irmãos têm de sobra. Há quase três anos foram adotados por Rogério e Weykman, fundadores de um grupo de apoio à adoção.

“Éramos dois, uma casa tranquila e de repente quatro crianças com quatro idades diferentes. Foi um turbilhão no primeiro momento, um turbilhão bem legal. A gente tem dois anos com eles, mas parece que nasceram com a gente”, diz o contador Weykman da Silva.

A experiência da paternidade e do grupo deram a Rogério uma certeza.

“É nítido e é notório que crianças com idade mais avançada, grupos de irmãos, crianças negras, crianças com deficiência, crianças expostas ao HIV, elas têm uma aceitação muito maior por parte das famílias homoafetivas porque a maior parte das pessoas LGBT passou por dificuldade de aceitação de superação”, diz Rogério Koscheck.

Hoje o grupo ajuda todo tipo de casal a superar dificuldades antes e depois da adoção.

“A gente trabalha o dia a dia se come demais, se come pouco, faz xixi na cama, diz que você não é meu pai, você não é minha mãe, então a gente trabalha o cotidiano”, conta Silvana do Monte Moreira, advogada e presidente da Comissão Nacional do Instituto Brasileiro de Direito de Família.

Jéssica também compartilha as experiências da maternidade e da adoção. Hoje ela usa a internet para mostrar que a busca não é fácil, mas termina com a melhor das recompensas.

“E é muito bom falar assim: ‘Olha, você não tá sozinho. Eu também passei por isso e hoje estou com minha filha’. Então o que eu sempre tento deixar claro para o pessoal é que pode demorar, mas a cada dia que passa, a cada passo do processo é um passo na direção do seu filho”, explica Jéssica Mundim Aguiar.