Boas ações

Situação de venezuelanos em Porto Alegre gera rede de solidariedade

FONTE: CORREIO DO POVO

Principal demanda de migrantes é por trabalho            

O drama vivenciado pelos refugiados da Venezuela tem gerado uma mobilização por parte dos conterrâneos que já se encontram em Porto Alegre. É o caso de Carmen Rincón, 40 anos, que chegou à capital gaúcha há três anos, junto com o marido, 42, e os dois filhos pequenos, Matias, de 3 anos e Júlia, de 5.

Quando percebeu a crise humanitária na sua terra natal, que tem feito com que boa parte da população do país busque refúgio em outros países para fugir das dificuldades, Carmen e o marido sentiram que precisavam fazer alguma coisa. A partir de uma rede social, ela foi encontrando outros venezuelanos que também residem em Porto Alegre e, desde então, realiza campanhas e está mobilizada com o grupo para buscar ajuda àqueles que mais precisam.

“Todos têm direito a uma boa casa, a comida na mesa e precisam ser tratados com carinho. Sinto que tenho que fazer minha parte pelos que mais precisam, porque podia ser o caso da minha família”, desabafou. Quando chegou a Porto Alegre, Carmen teve dificuldades de adaptação. “Nunca é fácil chegar a outro país, com outro idioma, outro sistema de educação e outra cultura. Fiz o que pude, mas sabia que não poderia voltar para a Venezuela naquele momento”, lembrou. Segundo ela, todas as noites, antes de dormir, fica difícil segurar as lágrimas ao lembrar de Mérida, a cidade onde nasceu, cresceu e para onde sonha em voltar. “Choro ao lembrar dos meus pais, quando penso que meus filhos vão crescer sem contato com os avós. Choro pelo meu povo, que está passando por dificuldades enormes”, contou.

Apesar das atenções estarem mais voltadas para o estado de Roraima, segundo ela, pelo menos 200 venezuelanos já vivem na capital gaúcha e na Região Metropolitana. E há a expectativa de que pessoas que estão em Roraima sejam transferidas para outros estados, inclusive para o Rio Grande do Sul. Para afastar o choro e criar forças para continuar, Carmen e os amigos venezuelanos criaram, em março deste ano, o projeto Araguaney. “Sei que sou privilegiada e acho que esse é o meu compromisso, auxiliar aqueles que mais precisam”, disse.

A partir da ideia, foram surgindo possibilidades de parcerias para fortalecer a articulação entre os migrantes. Foi quando o vínculo com a Associação do Voluntariado e da Solidariedade (Avesol) começou. “Estamos fazendo um grupo para ajudar aqueles que estão chegando e precisam de ajuda. Auxiliamos na questão do emprego, revalidação de títulos, damos orientações sobre o sistema de saúde, idioma, tudo”, explicou. Por conta da crise na Venezuela, pouquíssimas pessoas têm condições de comprar passagem de avião ou de ônibus e, sem outra alternativa, colocam as malas nas costas e fazem a travessia pelas fronteiras, seja para Roraima, ou para a Colômbia, e até mesmo pelo mar.

Carmen disse ainda que a comunicação com os pais, que permanecem na Venezuela, está cada vez mais difícil. “De um mês para cá ficou mais complicado, pois eles estão com problemas de luz, ficam cerca de 12 horas sem energia elétrica e nunca sabem quando isso vai acontecer. Com a morte do Chávez (Hugo Chávez), em 2013, a coisa só piorou, para todos os cidadãos venezuelanos”, concluiu.

Demanda principal é por trabalho 

A assistente social do Centro de Referência em Direitos Humanos (CRDH) da Avesol, Patrícia Siqueira, explica que as oportunidades de trabalho para os migrantes venezuelanos é a principal demanda. “A maioria das pessoas que chegam à Capital é formada por profissionais consolidados. Já atendemos dentistas, médicos, engenheiros e até mesmo um piloto de avião”, disse.

Quando chegam ao Brasil, eles também acabam inseridos na crise econômica e no problema do desemprego, mas com dificuldades ainda maiores. “Para que um médico consiga se inserir no mercado de trabalho, precisa passar por um processo burocrático de revalidação do diploma, por exemplo, cuja taxa chega a R$ 1 mil e a etapa inicial, de análise, dura pelo menos seis meses. É muito complicado”, ressaltou.

Além disso há um problema na busca pelos documentos necessários para encaminhar o processo. “Muitas universidades na Venezuela estão sem dinheiro até para tintas de impressora”, explicou. Essas pessoas chegam forçadamente a um país diferente, sem dinheiro para efetuar o pagamento da taxa necessária para que os anos de estudo sejam revalidados. “Temos uma perda da força de produção que poderia ser aproveitada”, ressaltou Patrícia.

Segundo ela, há uma articulação em andamento com as universidades do Estado com a intenção de desburocratizar a revalidação dos diplomas. “Também fizemos contato com o Sine e a FGTAS na busca por oportunidades de emprego, mesmo não sendo nas áreas de formação”, disse.

Dentro do projeto Araguaney de acolhimento específico aos venezuelanos, são ofertados serviços de assessoria jurídica, encaminhamento aos sistemas de saúde e de assistência social e acompanhamento dos processos de pedido de refúgio, por exemplo.

Até o momento não há confirmação de quantos migrantes ainda devem chegar à Capital. “Estamos fortalecendo a solidariedade para aqueles que estão chegando. Eles chegam tristes, mas com esperança de recomeço”, disse.

Quem puder fazer doações ou tiver interesse em trabalhar como voluntário no projeto, pode ir à sede da Avesol na rua Almirante Barroso, 665, no bairro Floresta.