Ser mulher

Ser mulher no Brasil

FONTE: GAZETA DIGITAL

Na última semana (mais) uma notícia sobre violência à mulher, daquelas que beiram a ficção, estampou as mídias: um homem ejaculou em uma passageira dentro de um ônibus, em plena luz do dia, e foi liberado porque o juiz não considerou que havia elementos para enquadrar o sujeito no crime de estupro por não ter havido violência. No início deste mês o mesmo rapaz, que tem em sua ficha criminal nove ocorrências pelos delitos de importunação ofensiva ao pudor e ato obsceno - já tendo sido condenado duas vezes pela prática de importunação ofensiva ao pudor - agiu novamente e encontrou, pela frente, um juiz sensato que entendeu o abuso sexual cometido dentro do transporte coletivo como estupro, mantendo o acusado preso. O juiz, sabiamente, transformou a prisão em flagrante em preventiva, sem prazo de duração. O acusado deve continuar preso até o final do processo criminal, o que evitará, pelo menos nesse caso, reincidências.

É tão surreal quanto difícil imaginar que fatos como este ocorrem diariamente, colocando as mulheres em situações cada vez mais difíceis. Não é fácil ser mulher nesse país onde, a cada 11 minutos, uma é vítima de estupro. O dia da dia da mulher brasileira - não importa a que classe social ela pertença - é cercado de cuidados e proteção dos mais variados. Vão da maneira de se vestir, de se portar, do que dizer, como dizer, dos gestos que podem ser mal interpretados e até mesmo dos sorrisos de gentileza que, se recebidos da maneira errada, podem colocar sua vida em risco.

Uma lista divulgada recentemente na internet expôs 12 cuidados principais que as mulheres tomam diariamente e que os homens sequer imaginam. Táticas para evitar encoxadas no transporte público, medidas preventivas para evitar assédio ao pegar um táxi, aprender artes marciais, deixar alguém de sobreaviso, mentir sobre sua vida afetiva e fazer a escolha meticulosa de roupas que podem evitar o assédio são algumas destas dicas.

Revelam mais que apenas cuidados, mas um estado permanente de alerta em que descuidos podem significar correr sérios riscos. A violência doméstica, que há algum tempo vem ganhando espaço e ressignificações como o feminicídio, já colocou em pauta a questão de posse do homem sobre a mulher, neste caso uma pessoa conhecida, com quem algum dia houve troca de afeto, respeito e confiança.

Este novo comportamento para temores antigos, engloba também os homens desconhecidos em seu mais amplo especto. A violência pode vir de qualquer direção: do passageiro que senta no banco ao lado, no transporte coletivo, o colega do trabalho ou o prestador de serviço que pode tomar certas liberdades e acabar "cometendo uma besteira", que é como eles geralmente justificam os abusos.

Eliminar todas as formas de violência contra as mulheres nas esferas públicas e privadas não é um desejo delas e de uma sociedade em particular, mas uma meta global da Organização das Nações Unidas (ONU), mais especificamente do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável - Igualdade de Gênero. Convenções internacionais estabeleceram o compromissos dos Estados em garantir às mulheres uma vida sem violência. Para isso é necessário que as instituições estejam preparadas para atender às necessidades dessas pessoas. Mas, principalmente, cabe à justiça ser implacável na defesa dos direitos delas. E que os fatos estampem as mídias para uma mudança comportamental da sociedade que precisa acontecer.

 

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