Ser mulher

O estigma de ser mulher num mundo de homens

FONTE: DINHEIRO VIVO

Ano novo, nova campanha. A Web Summit voltou a lançar a iniciativa Woman in Tech. Desta vez, a organização da conferência, que em novembro terá de novo lugar em Lisboa, não foi tão generosa com o sexo feminino.

Se no ano passado, os bilhetes foram oferecidos a todas as mulheres que se inscreveram durante o período promocional, este ano, a inscrição dá apenas acesso à possibilidade de compra de um ingresso a um valor reduzido, de 85 euros (o valor do bilhete sem desconto é de 850€).

Na edição anterior, a cimeira tecnológica congratulou-se de ter oferecido 10 mil bilhetes a mulheres, tendo o rácio de participação feminina sido de 42%, o maior de sempre num evento de tecnologia, segundo Paddy Cosgrave, fundador da Web Summit. Apesar disso, a presença feminina em áreas tech ainda é baixa. “Existe um grave problema no envolvimento das mulheres em questões de tecnologia. Não tem a ver com oportunidades.

Na Europa e nos Estados Unidos, sabe-se que o problema não é econômico, mas deve-se a fenômenos culturais e políticos”, explicou José Esteves, professor da IE Business School, em Madrid, ao Dinheiro Vivo. “Só há pouco tempo se começou a fazer campanhas de consciencialização.

Ainda assim, principalmente em culturas como a portuguesa e a espanhola, assume-se que as meninas não devem estudar tecnologia, que é um mundo de homens. Estamos a dar conta de que muitas vezes a influência vem dos próprios pais que estão a desmotivar as filhas a não seguirem essas carreiras”.

Nos Estados Unidos, uma pesquisa da Accenture indica que a percentagem de mulheres no mundo tech ronda os 24% mas que, se as condições culturais e políticas não forem melhoradas, esse valor pode descer até aos 22% até 2025. O mesmo estudo mostra que, se os governos proporcionarem uma adequada literacia digital feminina, será possível igualar os salários entre homens e mulheres em 2040, nos países desenvolvidos, e no ano 2100, nos países subdesenvolvidos.

Neste momento, existe uma acentuada desigualdade salarial. De acordo com a agência Comparably, que entrevistou mais de dez mil pessoas na indústria tech, os homens ganham cerca de 19% mais que as mulheres neste setor, sendo esta disparidade mais acentuada nas camadas mais jovens. Até aos 25 anos, a diferença chega quase aos 30%.

Em Portugal, os dados mais recentes da Pordata, indicam que, em 2007, na área da informação e comunicação, os homens ganhavam mais 15,6% que as mulheres. Essa diferença foi reduzida para 10,7% em 2014, num dos valores mais baixos da União Europeia – só ultrapassado por Malta com 10,2%, dos países que há registo. Por outro lado, nas atividades de consultoria, científicas e técnicas, também associadas à tecnologia, houve uma disparidade de 15,1% em 2007, que se acentuou para 21,5% em 2014. Para já, há pouco cor-de-rosa no mundo das novas tecnologias e não tem só a ver com salários e presença feminina.

A atriz Ashley Judd, que esteve em grande destaque na marcha das mulheres contra Donald Trump, com um discurso inflamado em Washington DC, dias antes tinha já denunciado o que chamou de “misoginia dominante na indústria dos videojogos”. Falando numa conferência TED, a celebridade afirmou ser assediada diariamente em fóruns online e redes sociais, como o Facebook e o Twitter. E disse não ser a única. Na sua apresentação, Judd apresentou dados que demonstram a proliferação de exposição de conteúdo pornográfico e sexual como vingança, sendo que 92% das pessoas com menos de 30 anos já testemunharam abusos online.

 

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