Aquecimento global

'Terceiro polo' do mundo, Himalaia corre risco de perder dois terços das geleiras com aquecimento global

FONTE: O GLOBO 

Especialistas consideram que esta é a 'crise climática da qual poucos ouviram falar'; novo estudo indica que mesmo a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris levaria ao derretimento

RIO - O Himalaia pode perder dois terços das suas geleiras devido ao aquecimento global até o fim do século, deixando “nuas” boa parte de algumas das montanhas mais altas do planeta, como o recordista Everest, com seus mais de 8,8 mil metros. O derretimento também coloca em risco a vida e o sustento de quase dois bilhões de pessoas na região.

O alerta é de um amplo relatório sobre os efeitos das mudanças climáticas no chamado “topo do mundo” e suas populações, publicado nesta segunda-feira, dia 4, pelo Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD), organização intergovernamental sediada em Katmandu, Nepal.

Também conhecida como o “terceiro polo”, a região do Hindu Kush cobre 3,5 mil quilômetros, atravessando Afeganistão, Bangladesh, Butão, China, Índia, Myanmar, Nepal e Paquistão. Aos pés do sistema montanhoso formado há cerca de 70 milhões anos — muito recentemente em termos geológicos —, estão dez das mais importantes bacias hidrográficas do mundo. Entre elas as do Ganges, do Indus, do Rio Amarelo, do Mekong e de Irrawaddy, que suprem direta ou indiretamente bilhões de pessoas com água, comida, energia, ar limpo e meios de sustento, e quatro das áreas de maior biodiversidade do planeta.

Resultado de cinco anos de trabalho de cerca de 350 pesquisadores de 185 instituições espalhadas em 22 países, o relatório traça diferentes cenários para o futuro das geleiras da área conhecida como Hindu Kush, que além do Himalaia abriga as cordilheiras de Pamir e Caracórum, também lar de grandes montanhas, algumas com mais de 7 mil metros de altura.

Temperatura aumentará em ao menos 2,1 graus

Segundo o levantamento, mesmo a mais ambiciosa meta do Acordo de Paris, de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius até o fim do século, refletirá em uma alta de 2,1 graus Celsius da temperatura média na região, com o derretimento de um terço das suas geleiras.

Já se os esforços para o corte das emissões de gases do efeito estufa fracassarem e tudo continuar como está, a temperatura média deverá aumentar em 5 graus Celsius na área do Hindu Kush, com a perda de dois terços de suas geleiras até 2100. E tanto o melhor cenário quanto o pior vão exigir ações urgentes dos governos locais para mitigar seus esperados impactos sobre a vida e sustento das quase 2 bilhões de pessoas que dependem da água das geleiras e dos ciclos por ela regulados nos vales montanhas abaixo, alertam os pesquisadores.

— Esta é uma crise climática da qual poucos ouviram falar — diz Philippus Wester, pesquisador do ICIMOD e líder do relatório. — O aquecimento global está no caminho de transformar os frígidos picos congelados das montanhas do Hindu Kush que cortam oito países em pedras nuas em menos de um século. E os impactos sobre as populações da região, já uma das mais frágeis e propensas a desastres regiões montanhosas do mundo, vão de uma piora na poluição do ar a um aumento de eventos climáticos extremos. Mas o golpe mais forte será as reduções projetadas no fluxo dos rios pré monções e mudanças nas monções, que vão desequilibrar os sistemas de fornecimento de água, produção de alimentos e geração de energia.