Direitos humanos

'É preciso ser sujeito e não objeto', diz Makota Valdina sobre o candomblé

FONTE: G1 - Por: Ingrid Maria Machado

Com 70 anos recém completados, Valdina Pinto de Oliveira, mais conhecida como Makota Valdina, cargo recebido no candomblé, é uma das participantes da terceira Festa Literária de Cachoeira, a Flica. Ela divide a mesa "Ndongo, Ngola, Angola, Bahia", que acontece no último dia do evento, com o escritor angolano Pepetela. A Flica acontece entre os dias 23 e 27 de outubro, na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano.

Como educadora e Makota de terreiro, Valdina vem lutando desde a década de 1970 contra a intolerância, principalmente a religiosa. Ela se posiciona na sociedade como militante e fez questão de impulsionar as mudanças na própria religião. Como ela diz, "é preciso ser sujeito dessa história e não objeto".

Em entrevista ao G1, Makota fala sobre os valores aprendidos desde pequena na comunidade do Engenho Velho da Federação, em Salvador, e que ela faz questão de dizer nas palestras pelo mundo.

"A nossa negritude sempre foi exportada como algo mágico, como algo folclórico e não como a cultura de um povo. Mesmo porque nós ainda lutamos contra racismo, preconceito e discriminação. Quando me tornei uma ativista e que comecei a falar de uma outra maneira, mostrando o candomblé, mostrando o sujeito de quem vive, eu me dei conta que nós éramos objeto de pesquisa, alguém falava sobre nós. Então foi intencional empunhar essa bandeira religiosa para desconstruir uma série de estereótipos e teorias desenvolvidas sobre nós e que eu considero ainda inverdades. É preciso que cada vez mais sejamos sujeitos de nossa fala, nossa escrita, de nossa história. É preciso parar de ser objeto. É preciso dar essa voz, dar esse espaço. Nesse ponto eu acho importante o fato da Flica me convidar, porque eu acho importante eles me darem um espaço para poder falar sobre isso, além de estar em uma mesa junto com Pepetela e, por meio dessa oportunidade, desconstruir essa imagem", completou a educadora.

Sobre a visão da vida, comunidade e religião, Makota acredita que nada vive em separado. Tudo para ela é uma relação única. Uma das lutas da educadora é que o Candomblé precisa ser mais respeitado no Brasil.

“Candomblé é vida para qualquer ser humano. Religião não é feita de lenda e mito. A essência está aí. Está chovendo, é água, é Oxum. A folha está aí, a terra está aí. É preciso que a gente olhe a realidade. Não é preciso que todas as pessoas sejam de candomblé, existem outras formas de se interagir com o mundo. Fico com medo de me esbarrar com brigas por conta da fé, que na verdade é uma briga política, de poder, e colocam o nome de Deus na frente de tudo isso. Só tem um Deus, mas tem muitos caminhos para se chegar até ele”.

Sobre as lutas que impulsionam o seu dia, Makota completa. "Nunca deixei de ser a educadora que sempre fui. Luto até hoje e até o final da minha vida, enquanto eu tiver força e enquanto eu tiver motivo por lutar, eu lutarei. Por Justiça, igualdade, paz e pela liberdade".

Conheça os escritores da mesa "Ndongo, Ngola, Angola, Bahia"

Makota Valdina: Natural de Salvador, é professora aposentada da rede pública municipal, educadora, ativista política e membro do Conselho de Cultura da Bahia. Valdina Pinto ocupa o cargo de Makota, assessora da Nengwa Nkisi, Mãe de Santo do Tanuri Junsara, Terreiro de Candomblé Angola, em Salvador.

Durante os mais de cinquenta anos de ensinamentos e atividades em prol da preservação do patrimônio cultural afro-brasileiro, Makota Valdina recebeu diversas condecorações como o Troféu Clementina de Jesus (UNEGRO), Troféu Ujaama, Medalha Maria Quitéria e Mestra Popular do Saber.

 

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