Cidadania

Organizações e Voluntários pregam respeito e soliedariedade a venezuelanos em RR

FONTE: MIGRA MUNDO

Na contramão dos que segregam os migrantes, diferentes grupos e pessoas tem se mobilizado para acolhê-los da melhor forma possível

Às três da tarde de uma quarta-feira de fevereiro, o sol é de rachar em Boa Vista, capital do Estado de Roraima. No bairro Caimbé, periférico, o professor doutor do Instituto de Antropologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR), José Carlos Franco, limpa um banheiro improvisado e seco no amplo quintal de uma casa na qual ele não reside. Ao lado, estudantes da mesma Universidade chegam para ensinar português de graça a uma dúzia de venezuelanos, em uma sala envidraçada. Eles poderiam estar em outro lugar naquele momento, mas decidiram ajudar os imigrantes que chegam aos montes todos os dias no seu Estado.

No Projeto/Rede Acolher, fundado por estudantes e professores da UFRR em 2017, inicialmente eram oferecidas aulas de português e atividades esportivas gratuitamente para estrangeiros. Até hoje, as aulas acontecem às segundas, quartas e sextas, das 15h às 17h, no Recanto, a casa na rua João Padilha, 1036, no Caimbé. No Centro de Treinamento do Servidor, na UFRR, há yoga às sextas e dança circular às quintas; e capoeira às terças no Espaço de Cultura e Arte da UFRR no bairro União Operária.

Mas em pouco tempo, outros voluntários apareceram e cederam residências ociosas para a moradia de imigrantes; produziram curtas-metragens e vídeos mais longos com recursos de agências de publicidade e ONGs; ofereceram assessorias jurídicas e escutas sensíveis; realizaram eventos de sensibilização; criaram o portal Somos Migrantes, que reúne dados e notícias sobre o assunto.

Tudo isso foi muito além dos objetivos iniciais do projeto, para se tornar uma série de atividades independentes que não deixam de ser interligadas pela mesma finalidade: o acolhimento. Não é mais nem possível dizer quem está na coordenação geral, tamanha a diversidade de iniciativas.

“A Rede Acolher é hoje um sentimento, podendo ter seu nome usado mesmo sem a nossa autorização”, começa o professor Franco. “Nossa ideia inicial era a de que todo mundo ajudasse os imigrantes a se integrarem à nossa sociedade. Trabalhamos com poucos recursos institucionais (talvez quatro bolsistas e duas mil xerox da UFRR), mas seguimos pelo coração e somos muito sinceros no que propomos: acolher, proteger e inserir. Nós também somos pouco burocráticos: a pessoa que doa, logo vê o imigrante receber. Há ainda o fato de um voluntário convidar o outro, fazendo om que conheçamos diversos grupos, principalmente religiosos. Então é um trabalho ágil, e sem estrelismos na sua divulgação”, explica.

Como aconteceu no último evento no qual o grupo participou: no dia 19 de fevereiro, na Praça Capitão Clóvis, no centro de Boa Vista, onde aconteceu uma grande apresentação artística que reuniu bandas de música, coletivos de cinema e ONGs, dentre outros grupos; e arrecadou 200 kits de higiene e outros materiais.

Conscientização

O professor faz questão de ressaltar que a quantidade de pessoas dispostas a dedicarem uma parte de seus dias e de suas rendas para ajudarem os imigrantes que fogem da fome no país vizinho é muito alta. Apesar da grande mídia e de uma parcela considerável da população local tratarem do assunto com preocupação, desdém, preconceito e outros comportamentos xenofóbicos.

Se hoje são 40 mil venezuelanos morando em Boa Vista (mais de 10% de todos os habitantes da capital, que possui um total de 330 mil pessoas), Franco arrisca dizer que em torno de 90% deles estão abrigados, graças à enorme rede de acolhimento. Os voluntários arranjaram residências até mesmo em outras capitais, como São Paulo. “A quantidade de refugiados em praças e ruas de Boa Vista é enorme, mas se compararmos ao montante total, a maioria conseguiu ficar em casas ociosas, em lugares alugados e/ou compartilhados, e só não conseguiram mais empregos porque o Brasil está em crise, mesmo”, comenta.

Para levar mais informações à população, como forma de diminuir este preconceito, a Rede Acolher iniciou no último mês de dezembro uma campanha dentro das escolas de ensino médio de Boa Vista, onde os voluntários apresentam o Portal Somos Migrantes como fonte de pesquisa, exibem dados sobre a imigração e explicam que este fenômeno não acontece somente em Roraima.

“Primeiro apresentamos as informações, para só então iniciarmos uma discussão. Os alunos perguntam bastante sobre a disputa pelo mercado de trabalho, uma questão que incomoda a muita gente e que origina os pensamentos xenofóbicos. Nas classes populares, que são maioria, há muitos desempregados, e com os imigrantes, esse contingente dobra, pois aqui o diploma de nível superior dos venezuelanos não é reconhecido e eles precisam exercer profissões que não são as deles”, diz.

“Então eles chegam aqui sabendo disso, mas com a expectativa de pelo menos conseguirem dinheiro para comer. Porém, tem acontecido de eles saírem de um lugar que já está ruim, chegarem aqui e não conseguirem trabalho, pois o momento está sendo de dificuldade para estrangeiros e brasileiros. Afinal, é uma conversa mais difícil de ser levada, porque a solução não está ao alcance da sociedade civil: é uma grana alta para se montar uma indústria, um comércio, asfaltar uma rodovia. É preciso que venham recursos de fontes públicas e privadas, não basta dizer: ‘tem que se gerar emprego’”, afirma.

Outro gargalo que gera discursos preconceituosos, observa Franco, está no estigma de que venezuelanos são mais perigosos do que brasileiros. Segundo a Polícia Civil em Roraima, houve realmente um salto nos crimes tendo estes estrangeiros como autores (de 13 para 30, em 2015 e 2017) e como vítimas (de 27 para 57, em 2015 e 2017), porém é importante destacar que a proporção de refugiados no Estado também cresceu de lá para cá.

“Se você desce do México até a Guatemala, passa pela Colômbia, pelo Brasil e pela Argentina, verá que o quadro é o mesmo: as pessoas se sentem inseguras por causa da grande quantidade de assalto à mão armada, de homicídio, de furto, de tráfico. Dentro do Brasil, se você buscar índices de violência em capitais como Recife e Porto Velho, eles serão bem mais altos do que os daqui. Ainda assim, se aqui ficou mais violento, não foi exatamente por culpa do imigrante: eu mesmo me mudei para cá em 2006 e no meu bairro só existiam cercas de madeira, ou nem isso. Em 2010, já estava tudo com muros, sob o argumento da insegurança. Naquela época não havia imigração em massa. Então é claro que há infratores venezuelanos, mas é na mesma proporção de brasileiros criminosos”, argumenta.

Sem Fronteiras

Como o próprio professor disse, a rede de pessoas interessadas em estender a mão aos novos moradores de Roraima é enorme. Jádila Tainá, estudante de enfermagem da UFRR e bolsista no Acolher, recentemente começou a se deslocar até o Recanto para ensinar português. “Nós vamos vendo do que eles sentem mais necessidade, e a partir daí montamos nossa próxima aula. Ensinar é algo com o qual eu não tenho tanta vocação, mas estou aqui porque gosto deste contato humanizado. Às vezes venho para cá cansada, mas sentir que estou ajudando alguém é revigorante”, explica.

Wagner Moura, fundador e presidente da ONG Fraternidade Sem Fronteiras, fundada em 2009 em Campo Grande (MS), está em Boa Vista desde outubro do ano passado com a intenção de observar a realidade e, a partir daí, treinar futuros representantes de sua organização. Encontrou a venezuelana Alba Gonzales, que se tornou a coordenadora do projeto em Roraima. Junto com outras pessoas, eles fundaram o Centro de Acolhimento no dia 9 de dezembro de 2017, na rua HC 4, 1633, no bairro Senador Hélio Campos.

Localizado em uma região de chácaras, o Centro dispõe de cinco mil metros quadrados, ruas artificiais e barracas 3x3m para acomodar mais de cem famílias. O aluguel de um ano foi pago por um empresário local, enquanto que a cozinha industrial do refeitório, os móveis e as próprias barracas foram conseguidos por empresários paulistas. Os próprios venezuelanos ajudam a administrar o espaço, como forma de aumentar a autoestima das pessoas ajudadas. São servidas três refeições diárias, distribuídos kits de higiene pessoal, há uma lavanderia compartilhada e banheiros. A doação mínima para ajudar o projeto é de R$50, que podem ser pagos através do site da Fraternidade.

Recebendo contribuições em dinheiro de todo o país (já são mais de 240 padrinhos), além de roupas e alimentos, a ONG é uma das mais procuradas em Boa Vista. Seus membros conseguem até mesmo ajudar outros abrigos. Porém, a meta é atingir 600 padrinhos, para cobrir os custos do terreno.

No dia 10 de fevereiro, um grande evento foi realizado como forma de agradecer à vizinhança do Centro de Acolhimento e o grande público: os próprios imigrantes que moram no local prestaram serviços de beleza gratuitos (escova, hidratação, corte masculino e feminino, esmalteria e chapinha), distribuíram café da manhã, organizaram um coral infantil e fizeram apresentações de balé moderno e clássico. O festejo contou com a parceria de outros grupos voluntários, como os palhaços da ONG Os Pirilampos.

A analista judiciária Vanessa Epifânio, moradora de Boa Vista e voluntária da Fraternidade, não tem hora para chegar em casa. Na entrevista que deu ao MigraMundo, já passava de meia-noite e ela ainda estava na rua fazendo atividades para a ONG. O cansaço é substituído pela satisfação em ajudar. “As doações já serviram de alívio para diversos imigrantes, e a linda manhã do dia 10 foi bem positiva para aquebrantar a xenofobia existente em Roraima. Tenho o maior orgulho em dizer que faço parte do movimento ‘Brasil, um Coração que Acolhe’, e trabalhar para essa organização humanitária é um grande prazer. Não digo nem que é um trabalho: é um aprendizado diário de amor, de exercício do bem, de olhar o próximo. É um crescimento espiritual”, descreve.

Respeito

Por ser uma jornalista bastante conhecida em Boa Vista, Sheneville Araújo tem muitos contatos. Acaba lendo muitas postagens desrespeitosas sobre o assunto em suas redes sociais e seus grupos de conversa, além de ver na mídia declarações públicas menosprezando os imigrantes. Muitas delas reclamam dos pedintes venezuelanos, os julgam como assaltantes, afirmam que eles são aproveitadores das coisas do Brasil e estão deixando a cidade feia. Nas ruas, a jornalista observa muita indiferença às pessoas vindas do país vizinho.

Entristecida com estas atitudes, ela acredita na velha frase do “cada um dá o que tem”. Em vez de fechar o vidro ou ligar o para-brisas para afugentar os venezuelanos que ficam nos semáforos, Sheneville os cumprimenta com sorrisos e com as palavras que sabe em espanhol. Quando lhe é possível, faz pequenas doações. Tudo isso porque ela não acredita que seja uma “vida fácil” ficar o dia inteiro debaixo de um sol de quase 40 graus, na expectativa de ganhar trocados para poder comer.

“Claro que existem venezuelanos ruins, assim como existem brasileiros ruins. É muita pequenez generalizar. Afinal, todas as pessoas, no fundo, são migrantes: se não elas, seus avós ou bisavós partiram de algum lugar em busca de melhores condições de vida, um movimento natural do ser humano. Migrações existem desde que o mundo é mundo”, opina.

Além disso, ela afirma ser impossível saber como está sendo a vida do outro, por isso, adotar uma postura de respeito é o mínimo. “Um sorriso desarma quem está infeliz, quem está chateado, e ajuda quem está precisando de um afago. Eu nunca fui desrespeitada por eles, pelo contrário, eles é quem pedem desculpa pela abordagem ou por falarem em espanhol. Acredito muito em energia, que uma coisa boa atrai outra. Espero sinceramente que mais energias boas circulem por aí”, finaliza.

É como o jovem venezuelano Rahidee Vidal gostaria de ser tratado. Com 24 anos de idade e um diploma de economista obtido há um ano, ele veio de El Tigre, no Estado de Anzoátegui, para morar com a tia brasileira em Boa Vista. Sua irmã pagou sua viagem até Santa Elena de Uairén, na fronteira com Roraima. De lá, ele seguiu de ônibus até a capital. Mas quando desceu na rodoviária, a pessoa que havia combinado de lhe buscar simplesmente não apareceu, e o rapaz não conseguiu se comunicar com ninguém. Acabou tendo que morar sozinho em um condomínio enquanto não conseguia ligar para sua família. Hoje, um mês depois, ele já está devidamente instalado na casa de sua tia, mas sua trajetória foi de muito desamparo.

“Senti muita saudade da minha antiga vida. Deixar o seu país e o seu povo não é fácil, aqui é outra cultura e outro idioma, é muito complicado. Apesar de achar Roraima tranquilo e organizado, me sinto deslocado. Para completar, escutei e escuto muitos comentários sobre sermos ladrões e as mulheres prostitutas. Falam isso para mim nas ruas, nas feiras, no condomínio onde morei”, lamenta.

É por isso que, sentado à uma mesa com outros dois conterrâneos, colando em uma cartolina figuras de produtos de supermercado com seus respectivos nomes em espanhol e português, ele sorria de orelha a orelha. Desde que sua tia viu uma notícia sobre o Projeto Acolher, ele passou a frequentar o Recanto no bairro Caimbé três vezes por semana, para aprender português enquanto espera seus documentos chegarem e enfim poder trabalhar. Chegando no endereço apenas com a expectativa de ter aulas gratuitas, ele descobriu que o grupo faz jus ao nome. “Me sinto muito bem aqui. Me sinto contente e acolhido, mesmo”, diz.

 

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