Diversidade

Vaquinha e solidariedade constroem escola para ajudar índios guarani-kaiowá em MS

FONTE: G1

Vendaval destruiu escola indígena e, desde então, 150 crianças estavam em escola convencional a 50 quilômetros de distância.

O problema é antigo. Lá se vão dez anos desde que um vendaval destruiu a escola indígena da Aldeia Limpa Campo, em Ponta Porã, Mato Grosso do Sul. Cento e cinquenta crianças foram transferidas para uma escola convencional a 50 quilômetros de distância. Até hoje, a escola não foi reconstruída. O caso foi parar no gabinete da defensora pública federal Daniele Osório. E ela surpreendeu: decidiu que não iria acionar a Justiça para obrigar a Prefeitura de Ponta Porã a resolver o problema. Sorte dos guarani-kaiowá! É... pode parecer estranho, mas foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para os índios da aldeia. É porque a defensora pública abriu mão da via judicial para apostar na solidariedade.

Daniele não tinha dúvidas de que a Justiça ia determinar que a escola fosse colocada de pé. Mas sabia que poderia demorar muito até sair uma sentença. E, enquanto isso, as crianças que já estavam há dez anos estudando longe da aldeia teriam que esperar ainda mais.

"Ainda que se ganhe a ação judicial, é difícil executar uma sentença quando dependemos de recursos públicos que, todos sabemos, são limitados. Os sucessivos recursos e as diversas instâncias em que caminham os processos demandam muito tempo, o que pode prejudicar uma geração inteira de crianças daquela aldeia", explica a defensora pública.

Por que não fazer, então, uma vaquinha na internet para construir a escola? A ideia veio junto com o apoio de muita gente que não mora na aldeia, não é índio, nem criança, mas que se colocou no lugar dos guarani-kaiowá: a solidariedade de um produtor rural vizinho à aldeia se somou a de um antropólogo da região e ganhou força com a empatia de uma médica e uma jornalista. Pronto: a rede de solidariedade estava formada.

A vaquinha virtual foi lançada no fim de setembro. Em menos de um mês, a meta de arrecadar 25 mil reais para comprar tijolos, cimento e tudo mais para construir a escola foi alcançada (e mesmo assim as doações não param de chegar, agora para compra de equipamentos e melhorias na estrutura física).

"Os diversos voluntários envolvidos no projeto e, principalmente, a doação feita por dezenas de pessoas dão esperança de que muita gente quer transformar o Brasil num lugar melhor", comemora a defensora pública.

"E os gastos com a mão de obra?", você deve estar aí se perguntando... A resposta veio, de novo, da união de esforços. Os índios da aldeia decidiram que vão fazer um mutirão para construir a escola. Problema resolvido? Quase. Ainda ficaria faltando o dinheiro para contratar professores e cobrir todas as despesas (água, luz, merenda...). Aí foi a vez do poder público se mexer. A prefeitura se comprometeu a assumir a responsabilidade dela e bancar – e manter – o funcionamento da escola.

A meta de Danielle é que tudo esteja pronto no ano que vem. A pressa da defensora tem uma explicação, que vai além da necessidade de encurtar a distância entre a escola e o lugar onde as crianças e pré-adolescentes vivem. Fora da aldeia e longe dos seus costumes, elas ficam expostas ao preconceito de alunos que não são indígenas e deixam de aprender sobre a língua e a cultura dos guarani-kaiowá. "A educação diferenciada, intercultural, bilíngue e comunitária é direito dos indígenas no Brasil", lembra Danielle.

A defensora pública sabe bem como uma escola indígena faz diferença na vida dessas crianças. Tem um exemplo dentro do seu gabinete: a estagiária da Defensoria Pública, Priscila Caetano Amorim, é a primeira indígena aprovada no curso de Direito da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Estudou a vida toda em escola indígena, dentro da aldeia onde morava. "Isso foi muito importante para eu ter contato direto com a nossa língua materna e para a preservação da nossa cultura indígena. Enquanto crianças indígenas necessitamos de uma convivência familiar que está ligada culturalmente a várias gerações antepassadas", diz a jovem de 19 anos.

A história da aldeia sem escola tocou Priscila. Ela quis ir até lá para conhecer as crianças. Mal sabia que elas é que estavam curiosas para saber tudo sobre a índia que foi atrás do sonho de entrar na universidade. "Senti nelas um ar de expectativa, porque se eu consegui estudar para estar em uma universidade federal todas aquelas crianças também podem se dedicar para conseguirmos autonomia de nós indígenas. A educação tem o poder de transformar. Podemos ser o que quisermos, sem deixar nossa cultura de lado", fala Priscila, com a empolgação e a propriedade de quem "chegou lá".

 

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