Terceira Idade

Inclusão: Idosos superam obstáculos e se lançam definitivamente no mundo digital

FONTE: GAZETA

Com novas tecnologias, gerações mais velhas passam a ter uma vida mais dinâmica

Idosos estão cada vez mais utilizando a internet

A inclusão digital já se tornou parte da rotina de pessoas em todos os lugares mundo. Passa-se cada vez menos tempo "desconectado" e utiliza-se os recursos digitais para a realização de muitas ações e tarefas. Em uma época na qual a "internet das coisas" é realidade cada vez mais frequente, aqueles que não se adaptam se tornam "analfabetos digitais", praticamente excluídos da sociedade contemporânea.

Para as gerações mais novas, que já nasceram em um mundo digital, na maioria das vezes isso não representa nenhuma dificuldade. Já para os mais velhos, é característico não demostrarem tanto conhecimento em relação a isso. A partir de certa faixa etária, muitas pessoas não ficam a par de todas as funcionalidades digitais. Entretanto, pesquisas apontam que a terceira idade não quer ficar de fora desse novo mundo.

Segundo dados do IBGE, os idosos estão usando cada vez mais a internet. Em quase dez anos, o número de pessoas acima de 60 anos que acessam a rede mais que dobrou: eram 5,7%, em 2008, superados pelos 12,6%, em 2013. Outra pesquisa de 2017, realizada pela AVG Technologies em diversos países, incluindo o Brasil, descobriu que o celular é o dispositivo mais utilizado entre os idosos, abrangendo 86% dos entrevistados. E 76% deles utilizam o Facebook e apenas 9% não usam nenhum serviço de comunicação.

Em Alagoas, o grupo 'Geração Ativa' do Gerenciamento de Pacientes Crônicos do Hospital Unimed Maceió vem ajudando os indivíduos com 60 anos ou mais que desejam se inserir na sociedade e nas plataformas digitais. Criado em junho deste ano, ele tem por objetivo estimular mudanças socioeducativas, para a manutenção de uma vida ativa e saudável, envolvendo as dimensões física, emocional e cognitiva.

De acordo com a psicóloga do grupo, Madalena Freitas, o 'Geração Ativa' surgiu após perceber a necessidade de socialização por parte dos idosos. "Ao ouvir alguns pacientes, ficou nítido que eles possuíam a vontade de se comunicar, de estar com o outro, de poder ser incluído, seja na sociedade ou na internet. Alguns se sentiam cansados e achavam que não tinham mais essa capacidade. Em cima dessa proposta, nós estudamos e criamos o grupo 'Geração ativa' que, atualmente, conta com a participação de quase cem idosos entre mulheres e homens de 60 a 70 anos", afirmou.

Acompanhada por uma equipe multidisciplinar composta por psicólogos, nutricionistas e enfermeiros, os encontros do grupo são quinzenais no Centro Integrado de Assistência à Saúde (CIAS), no bairro do Farol, parte alta de Maceió. Entre as atividades oferecidas, estão oficinas recreativas, de tecnologia e mundo digital, troca de saberes, alongamento, entre outros.

Ainda segundo Madalena, a principal dificuldade dos idosos é com a tecnologia e, por isso, costuma tratar o assunto sempre que se encontram. "Criamos um grupo no Whatsapp com os participantes do projeto e muitos não sabiam gravar áudio, mandar mensagens e até mesmo fazer ligações. Então, decidimos relacionar à internet com os assuntos de saúde e bem-estar. Estamos tendo um bom resultado e muitos até dizem que já estão independentes", frisou.

Marcelo Magalhães fala dos benefícios da tecnologia para os idosos

O aposentado José Amaro, de 66 anos, venceu algumas dificuldades para ficar conectado à internet. Hoje, com um smartphone na mão, ele mostrou que o que não falta são aplicativos para lhe manter entretido durante todo o dia. "Tenho Whatsapp, Facebook e Instagram. Gosto de ficar olhando tudo, conversar com meus familiares e postar fotos. Não sou tão viciado quanto os adolescentes, mas não fico desconectado por muito tempo. Desde que parei de trabalhar, a internet virou o meu refúgio", assegurou.

José Amaro venceu algumas dificuldades para ficar conectado à internet

José Amaro também contou que poucos acreditaram na sua capacidade de adentrar na rede e, por persistência e força de vontade, se matriculou em um curso de informática que lhe permitiu aprender.

"Antigamente nem celular com internet tinha. Quando percebi que estava ficando para trás, fiz um curso básico de informática. Apesar de não saber ler muito, aprendi a desenrolar algumas coisas, além de conseguir mexer em um celular mais avançado. Sem dúvidas me sinto mais independente. Perguntava muito e, no final, não conseguia acessar nada", brincou o aposentado.
Ainda segundo o aposentando, a grande dificuldade que encontra na internet é a variedade de aplicativos e as constantes mudanças. "Não acho difícil mexer em um computador, celular, mas, sim, nos aplicativos. É muita variedade, muitas funções e, para quem não tem ritmo, acaba ficando perdido ou até mesmo desistindo. Mas, o segredo é seguir firme. Quando a pessoa aprende é muito bom", destacou.

A psicóloga Claudiane Barreto explica que há vários benefícios quando os idosos entram neste mundo tecnológico. "O fato do idoso aprender algo novo faz muito bem a saúde mental. Eles despertam o interesse da transformação, estimulando o raciocínio e a autoestima, resultando assim, na melhoria da qualidade de vida deles. A sensação de bem-estar por estar atualizado é maravilhoso", analisou.

Ela também ressalta que é de suma importância a presença da família nessa nova descoberta da terceira idade. "O estímulo por parte de parentes próximos é importantíssimo. Todo o processo de aprendizado requer que quem esteja ensinando tenha paciência. Se o idoso encontra um filho, um neto, que senta com ele pacientemente para ensinar, ele vai se sentir especial. Ele vai vivenciar um momento de troca", contou.

Depois de ter perdido o pai com Alzheimer, Maria do socorro pesquisou sobre a doença e entendeu que era preciso se manter ativa para não sofrer dela. Em 1998, teve um câncer de tireoide e, em 2009, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Por dois anos ficou na cama, usou cadeiras de roda e precisou de cuidadora. Hoje, Maria tem 70 anos e uma atividade intensa. Ela faz caminhadas, crochê e navega pela internet. O mouse, por exemplo, foi uma ferramenta que ajudou Maria a recuperar os movimentos do lado direito, afetado pelo AVC.

"Tive meu primeiro computador aos 30 anos, não sabia nem o que era um mouse. Fiz um curso de computação por uma semana e, fuçando, fui aprendendo a mexer na máquina", contou.

De tanto apertar botões daqui e dali, Maria hoje mexe com jogos, Facebook e e-mails todos os dias. Além da máquina, ela acessa sua caixa de e-mails pelo smartphone. "Mexo diariamente, até quero comprar um notebook para poder usar quando viajar. Viajo muito e quero estar conectada", comenta Maria, que diz que o lado bom de estar com as mãos ativas no teclado é trabalhar a mente.

"A gente trabalha o raciocínio, se atualiza com as notícias e se diverte. Tenho uma neta que está fazendo intercâmbio e tenho mantido contato com ela, acompanho as fotos que ela posta nas redes sociais e trocamos e-mails", conta, satisfeita em dizer que sua mente está a todo vapor.

Segundo o consultor em tecnologia, Valdick Sales, há dois grupos de idosos no Brasil: aqueles que usam as novas tecnologias, como Maria, e outros que têm medo de usar e aprender, ficando completamente à margem disso.

"Os que usam estão tentando reduzir o isolamento social, estão vendo aí um lazer e uma distração. Tão interagindo e lendo mais". Sales também comentou que todos os cidadãos deveriam fazer atividades relacionadas ao universo digital para manter o bom funcionamento cerebral.

Na tecnologia, Valdick explica que os e-mails, jogos, notícias e redes sociais são como variedade de recursos para a mente. "São atividades com características diferentes. As tecnologias estão suprindo uma série de demandas e necessidades sociais. Há uma geração enorme que já nasceu com essas tecnologias e outra que não teve essa intimidade com a máquina. Por isso, ao ser tornar parte desse universo, se sentem mais jovens e atualizados. Reduzindo assim a depressão e algumas doenças de perda de memória", disse.

Ainda segundo o consultor, quem ganha com isso são os empresários, dos mais diversos segmentos tecnológicos, que veem crescer, a cada dia, as oportunidades de ampliar seu nicho de atuação.

Entretanto, uma pesquisa mundial realizada pela AVG Technologies apontou que os idosos se sentem menosprezados pelas empresas, sobretudo as de tecnologia. Eles afirmaram que os produtos e serviços comercializados são direcionados aos jovens e não se destinam a suprir as necessidades dos mais velhos.

Considerando o número de idosos ativos e economicamente autônomos, essa atitude deve ser reavaliada. Valdick Sales destaca: "As empresas hoje estão com um novo estilo de trabalho. Antes, desenvolviam um sistema e testavam com crianças. Hoje, percebendo que a terceira idade também está na rede, trabalham em conjunto. Crianças, adolescentes, adultos e idosos participam do processo de desenvolvimento do mais novo sistema".

Idosos de Alagoas participam de encontros que estimulam a inclusão social

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 13% da população brasileira é idosa. Um estudo do Instituto prevê que, em 2050, haverá, no Brasil, 73 idosos para cada 100 crianças, em uma população de 215 milhões de brasileiros.

Para o membro do Conselho Municipal do Idoso de Maceió (CMI) e do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDI), além de coordenador dos Direitos da Pessoa Idosa da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), Crismédio Vieira, os números mostram que devemos ficar atentos. Em um país cuja expectativa é a longevidade, o importante é que haja projetos, como o de inclusão digital, que promovam um bem-estar para essa faixa etária.

"Se as políticas públicas concentradas na inclusão digital da criança, do adolescente e do jovem priorizam o futuro, é de total importância que o idoso também seja incluído", comentou.

Ainda segundo Crismédio, órgãos do estado não disponibilizam cursos de inclusão digital para indivíduos com 60 anos ou mais. No entanto, ele vê a necessidade da implantação perante o Estatuto do Idoso de Lei 10.741/03.

"É importante destacar que essa lei obriga o Poder Público a criar oportunidades de acesso do idoso à educação, adequando currículos, metodologias e material didático aos programas educacionais a eles destinados. É necessário a implantação de cursos especiais relativos às técnicas de comunicação, computação e demais avanços tecnológicos para sua integração à vida moderna", falou.

Procurada pela Gazetaweb, a Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), confirmou, por meio da assessoria de comunicação, que Maceió não conta com um projeto de inclusão digital para os idosos. Entretanto, o Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) vem ofertando programas e projetos socioassistenciais de proteção para as famílias e idosos em situação de vulnerabilidade social.

 

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