Pessoas em situação de rua

(Sobre)viver na rua: Humilhação e invisibilidade social

FONTE: ALBERGUE NOTURNO DE ITU

Hoje estava andando na rua com minha irmã de seis anos quando ela me mostrou que, sob o sol do meio dia, um homem dormia na rua. Expliquei a ela que ele estava ali pois não tinha uma casa e era morador de rua. Depois disso, me peguei pensando: muitas vezes uma criança vê mais do que nós, adultos.

Como disse Otto Lara Resende, ela tem “olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo”, enquanto nós, teoricamente mais preparados para as experiências da vida em sociedade, olhamos sem ver.

O motivo de tamanha indiferença para com pessoas em situação de rua é o hábito. Nos habituamos ao fato de algumas pessoas não poderem usufruir de seu direito fundamental à moradia, por isso um homem jogado ao chão já não é mais tão impactante.

Nas grandes cidades, eles estão aos montes, deitados em cada esquina, e só os notamos quando eles nos incomodam de alguma maneira – ou estão no meio da calçada, ou suas partes íntimas estão à mostra, ou cheiram mal. Caso contrário, sua presença ali nos é indiferente. É presença não-presente.

O morador de rua é invisível. Seu discurso não é digno de consideração, seu sofrimento é ignorado e, muitas vezes, ele próprio não se vê como pessoa; está tão acostumado a não-ser, que se apropria dessa quase-existência como modo de se relacionar com o mundo.

A invisibilidade social é um fenômeno contemporâneo, muito próprio do século XXI, e está relacionado à lógica da sociedade de consumo. As relações de trabalho e a ideia de que para ser é preciso possuir bens de consumo, marginalizam todos os indivíduos que não se enquadram no padrão de consumidor, como é o caso das pessoas em situação de rua. Somado a isso, tem-se o preconceito para com essas pessoas, baseado nas representações sociais que criamos acerca delas.

Tendemos a ver o morador de rua como alcoólatra, usuário de drogas e violento – logo, alguém a ser evitado, apesar de o Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro ter feito um estudo que apontou que 65% dos moradores de rua não bebem e 62% não usam drogas. Presos nessas representações e imersos na lógica consumista, perdemos a dimensão humana de suas existências. O resultado de ser invisível é uma constante humilhação.

A palavra humilhação vem do latim Humiliatio. Humus é terra, logo “humilhação” desemboca em dois sentidos: trazer para perto da terra ou rebaixar, pôr abaixo (fazer cair por terra). Esse segundo significado é o que prevalece, fazendo com que a humilhação seja um ataque que coloca o outro como inferior àquele que atacou. O fenômeno social da humilhação caracteriza-se pela dominação de alguém por outro alguém. É preciso, então, no mínimo, dois indivíduos para que ocorra a humilhação social: o que humilha e o humilhado.

A experiência de humilhação é de uma crueldade tamanha, pois afeta diretamente a dignidade do humilhado. Enquanto humanos, só nos é possível Ser em relação ao outro; portanto, ser privado disso é ter sua dignidade atirada ao lixo. Nós, que não fomos marginalizados de tal forma, que não fomos privados de exercer nossa humanidade, não nos damos conta do quão devastador é estar sozinho no mundo.

Nossas experiências de solidão, essenciais para que construamos uma vida significativa, não são experiências devastadoras, pois sempre nos é possível sair da situação de retiro e voltar a partilhar com o mundo nossa existência. A pessoa em situação de rua, por ser invisível e humilhada, vive nesse silêncio imposto, fica presa dentro de si, incapaz de sair desse casulo tecido por uma vida indiferente.

Privados da convivência com o outro, os moradores de rua seguem suas vidas sem ter a oportunidade de aproveitar tudo aquilo que dá sentido à nossa existência: apreciar as coisas belas da vida, desejar, planejar e construir um futuro, ser ator de sua própria história. São impossibilitados de agir, no sentido que Hannah Arendt dá à ação: agir politicamente, construir significações, dar sentido à vida e ao mundo. Não podem narrar suas histórias, deixar registradas suas memórias. Há, porém, de se lembrar que toda ação gera uma reação.

A experiência de dominação gera uma reação por parte daquele que está sendo dominado, ainda que ela não seja publicamente exposta. A não ser que estejamos mortos, reagimos sempre. Basta que, da próxima vez que nos depararmos com um homem dormindo no chão sob o sol do meio dia, tenhamos interesse pela sua vida para percebermos que, apesar da constante humilhação, sua força e vontade de ser ainda estão lá, esperando ser reconhecidas para que possam reagir e florescer.

Revisado por Karol Vieira

 

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