Inclusão Social

Ex-moradores de rua agora trabalham em lanchonete na Praia do Canto

FONTE: Gazeta Online

A determinação é necessária, a super aclamada “força de vontade” também, mas isso sem uma coisa chamada oportunidade está longe de ser suficiente para dar alguma dignidade aos moradores de rua que querem, mas por uma diversidade de motivos não conseguem sair dessa situação.0

Prova dessa lógica são cinco rapazes que trabalham em uma lanchonete da Praia do Canto, em Vitória. O local acolheu em seu quadro de funcionários ex-moradores de rua, que, a partir da recente oportunidade de trabalho, podem finalmente fazer planos simples, como o de ter um lar e constituir família.

“Fazia uns cinco anos que não trabalhava de carteira assinada. Aí me chamaram para uma entrevista de emprego e desde março estou aqui”, conta Maurício de Souza Rodrigues, 27 anos, atendente de lanchonete do McDonald’s da Praia do Canto. “Hoje meu sonho é casar com a minha namorada, dar o meu melhor na empresa e subir de cargo.”

Entre seus colegas, estão também Delair Pereira de Freitas, 38, Willian Pereira, 27, Wesley Leonardo de Souza, 28, e Gledson Barbosa, 31. Todos tiveram a terrível experiência de morar na rua. E todos hoje querem ter condições de bancar a própria moradia.

RECOMEÇO

Nascido em Cariacica, Delair virou morador de rua em Ipatinga, Minas Gerais. Lá ele passou pela mesma situação frequentemente relatada em cidades que priorizam a transferência de moradores de rua para outros locais, em vez do atendimento individualizado de suas necessidades. “A prefeitura de lá estava ‘varrendo’ todo mundo da rua, dando passagem. Na primeira oportunidade, vim para cá. E aqui fiquei dois anos na rua. Cheguei aqui só com a roupa do corpo.”

Ao todo, foram 22 anos nas ruas. E há um mês ele trabalha na lanchonete.

Willian, além de ter o trabalho, hoje também ajuda outros dentro do Movimento Nacional de População de Rua. Já Wesley ficou sem trabalho e, sem querer “ocupar” a família com isso, como diz, e acabou nas ruas. “Hoje trabalhando, meu sonho é alugar uma casa”, diz.

Gledson viveu menos tempo na rua, oito meses. Mas a meta é igual a dos outros. “Recuperar o tempo perdido não tem como. Mas vou conseguir ter o melhor do que já tive: uma casa melhor, uma família bacana e uma vida estruturada.”

Chance

“A gente quer é um voto de confiança” - Delair Pereira de Freitas, atendente, 38

Há cerca de um mês, para Delair Pereira de Freitas, 38 anos, começar a trabalhar de carteira assinada era o voto de confiança de que ele precisava para dar um novo rumo à vida, até então marcada pela existência nas ruas. Hoje ele trabalha em uma lanchonete na Praia do Canto e, até ter condições de bancar o próprio aluguel, dorme no abrigo noturno de Vitória.

Como foi viver na rua?

Perdi meus pais com 15, 16 anos. Meus outros parentes não quiseram saber de mim, então segui meu rumo. Fui para Minas Gerais. Lá tive uma esposa, fiz uma filha, mas me separei da mulher, voltei a usar drogas, saí do emprego, aquele desespero. Fiquei uns 20 anos na rua em Minas.

E como voltou para o Espírito Santo?

A prefeitura de lá (Ipatinga) estava varrendo todo mundo da rua, dando passagem. Na primeira oportunidade, vim para cá. E aqui fiquei dois anos na rua. Cheguei aqui só com a roupa do corpo. Fazia um biquinho aqui e ali.

E sobre as drogas?

Usei drogas até os últimos dias. Faz um mês que não uso. Se Deus quiser, vou parar de vez. Tive essa oportunidade agora. É para poucos e para aqueles que querem a chance de se reerguer. Às vezes as pessoas pensam que a gente é ladrão. Mas a gente quer é um voto de confiança. É muito difícil a sociedade dar voto de confiança.

Em Vitória, 12 pessoas já foram encaminhadas para o trabalho

Desde que o novo modelo de atendimento a moradores de rua foi posto em prática, há três meses, 12 pessoas foram encaminhadas para o mercado de trabalho. “Procuramos parceiros. É uma vertente de responsabilidade social. É o que querer ajudar por parte das empresas”, diz Edinho Lima, gerente da Escola da Vida, da Prefeitura de Vitória.

A Escola da Vida funciona na Rodovia Serafim Derenzi, no Bairro São José, Grande São Pedro, e oferece oficinas e cursos, além de garantir documentação e dar orientações. O local não é destinado só a pessoas em situação de rua, mas também a famílias que estejam em dificuldades e queiram acessar os cursos.

Edinho explica que a abordagem social dá o primeiro passo, identificando o cidadão em situação de rua e suas necessidades individuais. Se ele aceitar a ajuda, é encaminhado para os programas da prefeitura.

Após a reinserção ao mercado de trabalho, o município continua a acompanhar o cidadão. “E se quiserem fazer alguma oficina na Escola da Vida, podem também”, acrescenta Edinho Lima.

 

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