Inclusão Social

Prata da Casa: banda formada por autistas promove inclusão social de jovens

FONTE: CB

Um dos sintomas mais comuns ao autismo é a dificuldade de comunicação. Além de servir como alternativa à terapia, a música fomenta a aceitação da sociedade e inclusão de pessoas com este e outros transtornos

Sete jovens com personalidades completamente diferentes, mas com duas coisas em comum: todos têm o Transtorno do Espectro Autista e formam a banda Timeout Rock Band. O grupo traz a marca da inclusão social. Além de melhorar o envolvimento dos meninos com a sociedade, cuidados e adaptações, como a distribuição de protetores auriculares, cardápios pictográficos (para quem não sabem ler) e cartilhas que destacam como lidar com os diferentes transtornos criam uma relação mais próxima com outros indivíduos.

A banda nasceu em 2017, criada por um grupo de psicólogos de Brasília. O objetivo era oferecer aos meninos uma alternativa de complemento às terapias comuns, para ajudar os músicos a criar vínculos. Paolo Rietveld, 28 anos, é um dos idelalizadores do projeto. Ele observou que alguns de seus pacientes tinham afinidades com a música e decidiu, então, criar a banda. O objetivo era mostrar que, apesar do transtorno, eles fazem parte da sociedade e também são capazes de fazer música de qualidade.

"A gente quer que as pessoas vá ao show por causa das músicas, não pelo autismo. Para isso, eles ensaiam muito e trabalham duro", destaca Rietveld. Segundo ele, a banda não tem apenas objetivos terapêuticos, mas também pretende quebrar o paradigma de que autista não pode fazer coisas comuns ou, quando fazem, são infantilizados ou subestimados.

A expressão Timeout, para os psicólogos, quer dizer um tempo fora. No conceito da banda significa um tempo fora das bolha que a sociedade nos coloca e ser quem realmente se é. "A gente até brinca que é a banda mais rock’in roll da atualidade, porque ela é transgressora no sentido de ultrapassar as fronteiras impostas pela sociedade. Os meninos realmente se desafiam e, ao mesmo tempo, fazem o que querem no palco", aponta Paolo.

Formação

Paolo Rietveld conta que reuniu no consultório três pacientes que notou possuir habilidades musicais. Três meses depois, passaram a ensaiar em estúdio. Os outros integrantes vieram em seguida. Ivan Madeira, de 15 anos, é o mais antigo. Ele comanda o vocal. Sua música favorita é Que país é esse, do Legião Urbana.

A banda conta ainda com outros dois vocalistas, João Daniel Coutinho, 13, e João Gabriel, 14. O tecladista, Mateus Winkler, também de 13 anos, embora faça aulas de teclado, não conhece nenhuma teoria musical. Sua maior habilidade é a memória fotográfica. O professor diz que é necessário mostrar a sequência da música apenas uma vez para que ele a toque para sempre.

Quem comanda o contrabaixo é Marcelo Guimarães, 18, que confessa: também adora funk e sertanejo. Thiago Carneiro é o guitarrista. Ele foi o último a entrar na empreitada. Após concluir o ensino médio, a família do rapaz se preocupou com o que ele faria a partir de então. A irmã, Aline Soares, soube da Timeout e entrou em contato com os terapeutas que logo abriram as portas para o garoto.

João Henrique Fardropes é o baterista e o mais empolgado da turma. Ele sonha em tocar um dia no Festival LollaPalooza e contou que, no último show, no capital Moto Week, se sentiu maravilhado. "Nunca vi um público tão cheio. Tinha gente pulando para tudo quanto era lado. Uma emoção enorme", descreve.

Felicidade e Libertação

A mãe de João Henrique, Adeline Castilho, de 60 anos, diz que a banda foi a melhor coisa que aconteceu na vida do filho. "Ele saiu do casulo", afirma. A funcionária pública conta que sempre notou a facilidade que ele tinha com a música, no entanto, nenhum psicólogo, terapeuta ou escola, mesmo as inclusivas, haviam aproveitado esse talento. "Até hoje ele foi discriminado, agora eu espero que o Brasil mude e aceite a capacidade e os dons de cada um para que sejam incluídos na sociedade como eles são", ressalta.

Bibiane de Souza, 35, é a mãe do Mateus e professora. O filho tem muita sensibilidade a sons, por isso, ela acreditava que a ideia de ele tocar em uma banda era impossível. No entanto, atualmente é comum a família sair para passear e perceber ele cantarolando, o que não acontecia antes. Os pais afirmam que além do orgulho, a sensação que a banda passa é de libertação. "Quando você recebe o diagnóstico, as pessoas acham que ele não é capaz, que ele tem que ser tratado diferente. O grande barato é que no palco ele pode ser quem ele é", diz. Bibiane conclui que ela também se sente Timeout por ser uma mãe perfeita, de ter que ensinar tudo e fazer ele aprender tudo: é uma libertação para todos.

A advogada Luciana Coutinho, de 45 anos, mãe do João Daniel, diz que a mudança na vida do filho foi em todos os sentidos. "Ele aprendeu a se socializar e se sente mais seguro em fazer amigos", comemora. Para ela, o mais importante é ver a felicidade com que os meninos sobem ao palco. "É impressionante como o autismo e as dificuldades somem nas apresentações. Parecem outras pessoas", detalha.

Luciana diz que também se emociona ao ver outras mães e pais, que muitas vezes não aceitam ou têm vergonha do diagnóstico do filho, verem que todos são capazes de tudo, basta descobrir qual o dom ou talento a criança possui.

O autismo

Segundo explica a psicóloga Carolina Passos, também idealizadora do projeto, o autismo é uma condição que prejudica a capacidade de se comunicar e interagir socialmente. "Eles interpretam os sentidos de uma forma diferente. Um toque, por exemplo, para você, pode ser algosutil. Mas eles sentem de forma muito forte e intensa", esclarece.

Carolina destaca que os primeiros sintomas do transtorno são, certamente, percebidos por pediatras ainda nos primeiros meses de vida. "Um bebê de 4 meses, por exemplo, já consegue dar um sorriso social. Se você sorri, ele sorri de volta. A criança com autismo demora muito para desenvolver um sorriso social. Um profissional vai perceber os sintomas facilmente", afirma.

Para a terapeuta, no caso do autismo é muito importante que o diagnóstico seja feito o quanto antes, por isso a importância de um acompanhamento médico adequado nos primeiros anos de vida. Outros sintomas podem ser: choro excessivo, falta de contato visual, hiperatividade, movimentos repetitivos, repetição de palavras, atraso de fala ou dificuldade de aprendizagem, falta de atenção ou intenso interesse em um número limitado de coisas, entre outros.

 

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