Abuso infantil

Maioria dos estupros de crianças ocorre dentro de casa, diz delegada

FONTE: A TRIBUNA - Por: Sheila Almeida

“Fui casada por 15 anos e descobri que meu ex-marido abusava da minha sobrinha, desde que ela tinha 4 anos, e a estuprou dos 7 aos 8 anos de idade”, diz Mia (nome fictício), de 42 anos. O caso reforça os dados do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea): cerca de 70% dos estupros ocorrem por parentes ou pessoas conhecidas da família. Do mesmo modo, sete em cada dez vítimas de abusos são crianças.

A titular da Delegacia da Mulher de Santos, Deborah Perez Lázaro, não tem números em mãos para indicar, mas sabe que os casos seguem essa mesma tendência na região.

“Infelizmente os números de estupros,de uns meses para cá, têm aumentado. E essa última ocorrência na Aparecida, com a menina de 9 anos, abalou a Cidade pela petulância do criminoso. Mas na maioria das vezes, o companheiro da mãe da criança, o próprio pai ou até o avô cometem o crime”, alerta.

No caso de Mia, que se separou e tenta colocar o ex-companheiro atrás das grades, tudo só foi revelado sete anos depois. A criança foi morar no exterior com a mãe e certo dia, Mia recebeu telefonema da irmã, contando o que ocorreu.

“Fiquei sem palavras e pensei, será que foi só com ela? Fui na casa da minha prima, que na época tinha uns 9 anos. Eu tremia tanto, mas perguntei: o que ele te fez? E ela contou: Ele não me violentou, mas por várias vezes eu acordava com ele me tocando, dizendo muita bobagem”, conta Mia.

Ela, que ainda aguarda a prisão do ex-companheiro, foi informada de que tudo ocorria na própria casa, após ser drogada diariamente para dormir. “Ele dizia que se ela contasse, iria me matar. Quando minha sobrinha não queria me visitar, eu ficava triste, não entendia. Na época nunca percebi, mas depois, comecei a pensar que ela dava sinais”, lembra, indicando que entre os alertas, a criança fazia xixi na cama, reclamava de dor abaixo da barriga e era bastante bipolar.

Para a delegada, todo cuidado é pouco com crianças, já que a pedofilia não tem lugar para acontecer. Orientações básicas podem ajudar a diminuir os números. Mia, ainda indignada, faz um pedido. “Não confie em absolutamente ninguém. Converse com os filhos sobre esse tipo de situação”.

Internet, janela para o perigo

Mesmo quando o crime não ocorre perto de casa ou entre familiares, o lar também pode ser um problema, através da internet. A Reportagem acessou um site de bate-papo (ver quadro). Neles, não é preciso inserir e-mail, senha, nem provar idade. Em minutos, mesmo informando a idade de 10 e 12 anos (em casos diferentes), surgiram vários pedidos para acionar câmera, convite para sair e perguntas sobre o tipo de corpo –sinais claros de pedofilia.

Gustavo Lourenço, especialista em Segurança da Informação e colaborador do blog Proteja Seus Dados, diz que há programas pagos e gratuitos que permitem a pais inserirem sites, palavras proibidas, horários e dias de acesso a internet.

“O computador sozinho não vem com isso. Há como bloquear algumas páginas, mas as crianças sempre sabem como fazer para desbloquear. A solução seria esses programas, com uso também integrado ao antivírus. Mas quanto mais alto o nível de customização, mais caro vai ser”, explica.

Medo muda rotina na Aparecida

O medo mudou a rotina de muitas famílias depois do caso do homem que entrou em um condomínio e tentou abusar de uma criança de 9 anos, na Aparecida, Santos.

Carla Froldi Negro Gouveia, de 41 anos, mora no local. A fonoaudióloga é mãe de duas meninas de 11 e 14 anos – ambas ainda apavoradas. A menor, que sempre brincou no playground até de noite, agora volta mais cedo para casa.

“Temos câmera no prédio e, de repente um indivíduo entra por descuido dos próprios moradores. Como vamos fazer? Vou ter que mudar minha rotina por conta da segurança”, desabafa a mãe, contando que entre os vizinhos foi combinado que sempre algum responsável acompanhará as atividades das crianças.

A sensação de insegurança não paira só onde o fato ocorreu. Os cuidados se estendem inclusive para os meninos. Margarete Cristini Ferreira, de 38 anos, já presenciou situações estranhas com o filho.

“De ônibus, enquanto eu pagava a passagem, ele passou pela catraca e foi se sentar antes. E foi abordado duas vezes por homens de mais de 40 anos que, quando perceberam que eu estava lá, se afastaram”, diz.

Orientar, mas sem assustar

É preciso orientar a criança. Mas informar na base do medo pode comprometer a formação do indivíduo, diz a psicóloga Teresa Schiff. Segundo ela, o ideal é que os pais estejam atentos sempre.

Na adolescência, por exemplo, cada responsável deve sentir quando e como abordar as questões, dependendo da maturidade adquirida.

“O problema é maior na adolescência, em um mundo que dá toda informação. É preciso criar os filhos sabendo dos perigos, mas sem neurose. Deixar o adolescente com medo demais é sinal de que se passou do ponto”, diz.

O problema do medo excessivo é o desprepara o para o jovem enfrentar a vida sozinho. “Eles precisam de bagagem de enfrentamento para lidar com o mundo”, diz.


 

 

 

 

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