Infância e Juventude

"O adolescente tem que ter sempre uma segunda chance"

FONTE: UNICEF

Há 5 meses, Lucas*, 16 anos, segue a mesma rotina. De manhã, está na instituição bancária em que trabalha como Jovem Aprendiz. À tarde, cursa o 2º ano do ensino médio em uma escola pública de Santarém (PA) e, à noite, concentra-se nos deveres de casa. É seu primeiro emprego e o adolescente quer seguir carreira no banco, fazer faculdade e ter uma família.

A trajetória de Lucas vai na contramão da de muitos meninos e muitas meninas que, como ele, cometeram um ato infracional. Aos 14 anos, o adolescente foi detido e sentenciado a 8 meses de medida socioeducativa em meio aberto. Com a medida, continuou vivendo com sua família, mas tinha que cumprir uma série de regras. Em um período do dia, ia para a escola. No outro, ficava em uma unidade do Centro de Referência Especializada de Assistência Social (Creas).

"Quando disseram que eu ia cumprir a medida, aceitei porque tinha que pagar pelo meu erro. No Creas, começaram a me dar orientações e fui me apegando a elas, e utilizando-as na minha vida. Agarrei a oportunidade e não pretendo soltar", explica o adolescente.

Com a equipe do Creas, Lucas construiu um Plano Individual de Atendimento (PIA). Trata-se de um projeto de vida para despertar a consciência dos adolescentes e traçar planos concretos para o presente e o futuro. Junto com o PIA, ele passou a receber o acompanhamento de psicólogos, psicopedagogos e assistentes sociais, e passou a se interessar e participar de grupos de teatro, atividades esportivas, palestras e oficinas.

"A socioeducação é árdua. É um trabalho que precisa ser feito todo dia. As medidas socioeducativas são transformadoras de vidas. Mas essa mudança no outro precisa vir de dentro. Não adianta eu falar para ele mudar se ele não quiser. E, a partir do momento em que ele decide, é transformador", afirma Raenilce Paes Lisboa, coordenadora do Creas.

Ao longo de todo o processo, Lucas contou com o apoio incondicional da família. "Eles me disseram para não soltar essa oportunidade, porque uma oportunidade igual a essa era capaz de eu não ter mais. Se já me apoiavam antes, aí é que eles começaram a me apoiar mais ainda", conta o adolescente.

O empenho do menino, aliado ao apoio da família e do Creas, fizeram com que ele terminasse os 8 meses da medida socioeducativa com perspectivas reais de futuro. Alguns meses depois, por intermediação do Creas, Lucas foi chamado para uma entrevista de Jovem Aprendiz em uma instituição bancária na cidade, foi aprovado e começou a trabalhar.

Em seu primeiro dia como Jovem Aprendiz, estava com vergonha e bastante nervoso. "É uma grande satisfação o primeiro emprego. A gente fica bastante ansioso, quer saber o que vai acontecer, né?!", diz o adolescente, com um sorriso animado.

Com a ajuda dos funcionários, Lucas conseguiu se adaptar ao trabalho. Hoje, 5 meses depois, o adolescente se destaca e é alvo de elogios constantes da equipe. "Ele é uma das pessoas mais empenhadas da equipe", diz o gerente.

Quando perguntado sobre sua trajetória, Lucas é enfático: "A sociedade coloca vários defeitos naquele adolescente que comete ato infracional. Ela deveria apoiar esse adolescente a continuar o sonho dele. O adolescente tem que ter sempre uma segunda chance". E complementa: "O que eu espero para o meu futuro: ter um futuro brilhante, uma família formada, estar bem escolarizado, entrar numa faculdade, no curso de administração, que é meu foco".

Selo UNICEF

O município de Santarém está inscrito na edição 2017-2020 do Selo UNICEF, iniciativa do UNICEF voltada a estimular os municípios a implementar políticas públicas para reduzir as desigualdades e garantir os direitos de meninas e meninos previstos na Convenção sobre os Direitos da Criança e no Estatuto da Criança e do Adolescente. Nesta edição, o Selo UNICEF conta com 1.919 municípios inscritos na Amazônia Legal brasileira e no Semiárido, territórios que concentram o maior número de meninos e meninas em situação de vulnerabilidade do País.

Entre as ações que os municípios inscritos no Selo devem priorizar, está a oferta de atendimento socioeducativo em meio aberto de acordo com parâmetros do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), por meio da implementação do fluxo integrado entre a assistência social, a saúde, a educação, o Sistema de Justiça e o Poder Judiciário.

*Nome fictício - Santarém, outubro de 2017