Mundo

Qual a melhor maneira de doar para moradores de rua, segundo três visões

FONTE: ALBERGUE NOTURNO DE ITU - Por: Camilo Rocha - Foto: Agência Brasil

Conversar com quem pede é positivo, dizem pessoas que trabalham com moradores de rua Entre 20 e 25 mil pessoas moram nas ruas de São Paulo, de acordo com os últimos dados da prefeitura de 2017.

No Rio de Janeiro, segundo o Programa de Apoio e Inclusão Social à População de Rua, outras 15 mil não têm onde dormir. No Brasil inteiro, são mais de 100 mil pessoas nessa situação, pela estimativa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Quando se fala em maneiras de ajudar quem está na rua, ONGs, políticos e cidadãos apresentam opiniões variadas. “

Outros pregam a doação apenas de alimentos, nunca de dinheiro, que pode acabar sendo usado em drogas ou álcool.

Há também quem defenda a ajuda apenas a instituições, nunca a indivíduos. Vai nessa linha o slogan “Não dê esmola, dê futuro”, replicado Brasil afora por administrações municipais. Na outra ponta, há visões como a da ONG inglesa User Voice, fundada e administrada por ex-moradores de rua, que diz que não é da conta do doador o que o pedinte irá fazer com o dinheiro. “Se o seu dinheiro financia a última dose [de drogas], aceite que a pessoa preferiria estar morta. Se o seu ato de bondade o fizer acordar na manhã seguinte e decidir mudar de vida, isso é legal, mas também não é da sua conta”.

O Nexo ouviu três pessoas que trabalham em São Paulo com pessoas na rua para saber, a partir de suas atuações e experiências, quais as suas visões com relação a esses temas. Padre Júlio Lancellotti trabalha com a Pastoral do Povo da Rua, na região central de São Paulo; Kaká Ferreira é fundador do Núcleo Assistencial Anjos da Noite, uma ONG que distribui alimento para moradores de rua que vivem na mesma região; e Vinícius Lima, do projeto SP Invisível, plataforma que conta histórias de pessoas em situação de rua de toda a cidade, divulgadas nas redes sociais. Padre Júlio Lancellotti, Pastoral do Povo da Rua Dar comida ou dinheiro? “Não há resposta simples. Mais do que dar comida, é melhor comer junto. Melhor do que dar, é dar-se. O dinheiro é um problema na mão de qualquer pessoa, dinheiro dado é sempre um risco.

Como a comida também: muitas vezes ouço a pessoa de rua falar ‘a comida que me deram estava estragada, azedou’. O importante é ver como essas coisas acontecem. É o que diz o papa Francisco: ‘não basta dar alguma coisa, é preciso você saber quem é essa pessoa e ter proximidade com ela’.” Como vai ser gasto esse dinheiro? “Você sabe o que é feito com o dinheiro que você dá de dízimo, ou que dá para uma entidade social? Com seu dinheiro de imposto, você sabe o que é feito? Atualmente, no Brasil, todo mundo tem a sensação de que o dinheiro do imposto foi desviado. Você vai ao posto de saúde e não tem remédio.

A questão do dinheiro é um problema dúbio. Dinheiro tem de ser visto de maneira objetiva. Hoje, dois jovens de rua, irmãos, viajaram para Juiz de Fora. Uma pessoa da comunidade doou os recursos, mas nós fomos com eles até a rodoviária para embarcá-los.” Dar para uma instituição ou para o indivíduo? “Tem essa questão de ‘Não dê esmola, doe para uma entidade’. Eu acho que quem dá esmola é o poder público, que sempre dá respostas pífias a questões sociais.

Se você for doar algo para uma entidade, sempre é bom acompanhar como ela atua, como você pode participar. Em geral, as entidades que ligam na sua casa [para pedir doações] você não tem como saber o que são, e tem muita fraude nisso.” Partilhar é melhor que apenas dar “A questão é muito mais de partilhar do que de dar.

Dar para tranquilizar a consciência é uma resposta momentânea, não chega muito a nada. É por isso que seu gesto de partilha deve ser um gesto de compromisso, você deve estar comprometido com a vida daquela pessoa. Fazer um acompanhamento, estabelecer um vínculo.

Percebo muitos motoristas que conhecem as pessoas que estão na rua, alguns sabem até o nome. Aqui no [bairro do] Belém [no centro de São Paulo], quando chegam perto do viaduto, os motoristas já dão sinal de farol e os moradores de rua já ficam esperando. A pessoa então entrega o pacotinho ao morador. Estabeleceu-se ali um vínculo, que rompe a frieza da passagem indiferente. É positivo.” Kaká Ferreira, Anjos da Noite Dar dinheiro ou comida? “Entre dinheiro e comida, tem que dar alimento. Se der dinheiro, o pessoal vai comprar droga ou beber.

Às vezes, deixam absolutamente claro que vão beber. Quando isso acontece, oriento meu pessoal a não dar. Não acho que beber seja legal, não vou estimular só porque ela [a pessoa] quer. Eu ajudo, mas sem ir contra o que eu acredito. A bebida faz mal.

Não posso me agredir só porque tenho de respeitar o direito dos outros. Ajudo pessoas há 28 anos, então faço o que acho correto.” Doar para instituições ou indivíduos? “Às vezes, é melhor dar para instituições porque elas têm um esquema de trabalho e um pessoal preparado. Mas deve-se ajudar instituições sérias, e mais, ir lá ajudar, pôr a mão na massa. Fazer um trabalho voluntário é mais legal. Devemos ajudar que ela ajude.

Agora, se você tem alguém morando na rua na frente da sua casa, você vai lá e dá comida e dá água. Mas, se você só faz isso, será que isso é ajudar, ou será que é estimular a pessoa a continuar no mesmo lugar? Há situações de pessoas que preferem ficar pedindo a buscar uma solução para seu problema.

Muita gente mais velha que eu vive na mendicância porque é mais fácil. ‘Coitadinho do velhinho, vamos ajudar’. Será que isso não está mantendo ele no buraco?” Conversar com quem está na rua “Comecei a ajudar pessoas na rua um dia, em 1989, em que fazia muito frio na cidade, 4ºC. Um cara só de calção e camiseta veio me pedir dinheiro. Eu resolvi ajudá-lo. Dei roupa que tinha no carro para ele. Chamei ele para jantar num restaurantezinho simples na esquina. Conversei com ele e me dei conta de que ele não era uma coisa na rua, havia ali uma pessoa. Na volta, ele me disse: ‘você é um anjo da noite’. Eu disse que não era anjo coisa nenhuma. Mas aquilo me estremeceu, me despertou. Comecei a ligar para amigos para levar comida para as pessoas na rua.” Vinícius Lima, SP Invisível Dar comida ou dinheiro? “Eu dou o que tenho se o que eu tenho é o que ele precisa, seja comida ou dinheiro. Mas tento falar para o cara: ‘Você não precisa ficar me enganando e eu não vou te julgar’. Sempre tento também, mesmo que não dê nada, dar atenção, dar conversa, que é a base do SP Invisível. Então dei dinheiro ou comida, mas dei atenção. Ou não dei nada, mas dei atenção. Cinco, dez minutos do meu tempo.

Querendo saber do nome do cara, saber como ele está. Mesmo que não vá publicar a história dele.” E se o dinheiro for para comprar droga? “Sempre que alguém pede dinheiro, isso gera uma enorme desconfiança. Tem vezes que o cara vai consumir droga. Mas tem vezes em que ele vai te enganar e comprar uma comida ou uma fralda, e depois trocar por droga. A gente não pode criminalizar esse posicionamento do cara e não dar mais para ele porque ele usou para comprar droga.

Tem sim de entender que o consumo de drogas é algo muito mais amplo do que simplesmente descartar o cara como ‘noia’. Uma vez um cara disse: ‘vou ser bem sincero com você, tô precisando de tantos reais, mas é para comprar droga. Porque, se você não me der esse dinheiro, eu vou roubar de alguém, eu não vou deixar de usar a droga’.

Então o que eu vou fazer é poupar alguém de ser assaltado. Você não vai salvar o mundo se não der dinheiro para alguém usar drogas.” Doar para instituições ou indivíduos? “Entre dar para uma instituição ou para a pessoa, quando é pouca quantidade, eu dou na mão de uma pessoa. Mas, se é uma quantidade grande de comida, roupa ou dinheiro, doo para uma ONG parceira nossa, que é a Missão Cena, em quem eu confio e sei que vão distribuir para pessoas em situação de rua em grande escala.

Sempre tem gente que fala ‘tenho três blusas, você conhece uma ONG legal?’. Eu falo para doar diretamente para três pessoas na rua, porque pela ONG só se complica o caminho. É melhor você dar, e ainda tem a oportunidade de conversar.”

O vício da rua “Existe o pedinte profissional, mas essa palavra ‘profissional’ não dá para usar. Se o cara ganhasse mais que a gente, ele nem estaria na rua. Gosto de entender que o cara está preso naquele negócio. É um vício de rua, uma doença. Você não tem responsabilidade com trabalho, com pessoas da família, com namorada, você ainda ganha dinheiro e vai ficando lá. Mas nunca é uma grande quantia. E nesse processo recebe muitos nãos, vidros fechados, xingamentos. Aposto que, quando ele começou nisso, ele não tinha esse propósito.”

A importância do vínculo “Sempre que possível, acho legal criar o vínculo. Nem sempre é possível, pois o pessoal anda muito [pela cidade]. Mas acho que criar o vínculo é legal, até mais para a gente do que para o cara. Faz bem para o nosso dia a dia. Encontrar um cara que não tem a ver com a galera com que você está acostumado a conversar. Sempre digo que a primeira coisa que essas pessoas perdem são os vínculos; ele já vai para a rua num estágio em que não pode recorrer a ninguém, está brigado com a família.”

 

Cadastre-se em nosso informativo
  1. Nome
    Please let us know your name.
  2. Email
    Please let us know your email address.
  3. Captcha(*)
    Captcha
    Invalid Input