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Vilarejo francês abre as portas para refugiados de países da África

FONTE: NAÇÕES UNIDAS

Em um dia de inverno no vilarejo de Thal-Marmoutier, leste da França, um grupo de refugiados de países da África caminha pela neve, muitos deles pela primeira vez em suas vidas. Os 56 homens, mulheres e crianças moram num convento de freiras franciscanas e recebem assistência da ONG France Horizon. Na cidade de 800 moradores, a população recém-chegada encontrou amizade, apoio e uma oportunidade de reconstruir suas vidas.

Em um dia de inverno no vilarejo de Thal-Marmoutier, leste da França, um grupo de refugiados de países da África caminha pela neve, muitos deles pela primeira vez em suas vidas. Os 56 homens, mulheres e crianças moram num convento de freiras franciscanas e recebem assistência da ONG France Horizon. Na cidade de 800 moradores, a população recém-chegada encontrou amizade, apoio e uma oportunidade de reconstruir suas vidas.

Entre os novos habitantes do local, 25 refugiados – da Eritreia, da Etiópia e do Sudão – estavam detidos na Líbia e foram transferidos para o Níger pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Lá, se juntaram a outros refugiados da República Centro-Africana, Mali e Nigéria. Todos foram levados para a França para serem reassentados.

O prefeito de Thal-Marmoutier, Jean-Claude Distel, disse que a operação ocorreu tranquilamente. “Os refugiados apreciaram as boas-vindas que receberam dos moradores e, de nossa parte, estamos satisfeitos por termos conseguido dar uma pequena contribuição para o seu reassentamento, além de fornecer a eles tudo de que precisam para se integrar à vida da nação.”

O ACNUR entrevistou alguns dos moradores da cidade que viram suas vidas mudarem positivamente com a chegada dos refugiados:

O organizador

Ao longo do dia, Abdel corre de um lado para o outro no convento e faz um pouco de tudo: desde marcar consultas médicas e repor sabonetes até levar os refugiados para aulas de esporte.

Ele é funcionário da France Horizon e fica encarregado da recepção e do alojamento dos estrangeiros.

Abdel vive temporariamente no convento. “É muito importante para mim morar aqui, para garantir que tudo corra bem aqui e no vilarejo, além de ajudar na adaptação”, explica.

Psicólogo, ele é apaixonado por ajudar pessoas que passam por situações difíceis. “Com o tempo, percebemos que as pessoas que recebemos sofreram atrocidades terríveis”, conta.

Quando o grupo chegou a Thal-Marmoutier, Abdel e sua equipe de sete voluntários organizaram atividades, incluindo oficinas de culinária e aulas de ioga, para acolher os novos habitantes do vilarejo.

Hoje, uma equipe médica que trabalha com o Hospital da Universidade de Estrasburgo realiza exames para os refugiados, sob a supervisão de Abdel. Os moradores do convento se revezam para ir ao médico e se certificar de que estão bem.

Abdel também trabalha conscientizando a população francesa sobre a realidade dos refugiados. “Estou satisfeito e orgulhoso de dar as boas-vindas e tranquilizar os refugiados e os nativos, explicando que não devemos ter preconceitos ou estigmatizar pessoas que não conhecemos”, afirma.

A professora da escola primária

Do lado de fora da sala de aula do convento, é possível ouvir os acordes da música infantil “Alouette”, canção tradicional na França. Para a maioria dos alunos, essas palavras são as primeiras que eles cantaram em francês. Sentadas no chão, as crianças refugiadas observam a professora, no centro, pronunciando as palavras. Esta aula é o ponto de partida para a matrícula no sistema público de ensino.

“É uma alegria dar aula para eles”, diz a professora, Sylviane. “Eles são alunos motivados que realmente querem aprender.”

A docente diz que, ao ensinar sua língua materna para os meninos e meninas de outros países, “percebo que eu mesma teria dificuldade de reproduzir um som no idioma deles ou lembrar de novos fonemas”.

“Estou muito impressionada”, completa a pedagoga.

O professor de francês

Os refugiados adultos passam a maior parte do dia num curso intensivo de francês, organizado pelo Escritório Francês de Imigração e Integração. O refeitório do convento é usado como sala de aula após as refeições.

Mohammed, o professor, está preparando os alunos para a vida no novo país. Ele ensina como se apresentar, falar de onde veio e sobre a família. O educador também explica como se virar na França e como ler placas de rua.

“Nós apresentamos a eles a vida na França, o transporte público, (ensinamos) como ler um mapa em uma parada de ônibus. As pequenas coisas da vida cotidiana”, diz Mohammed.

As aulas também abordam diversidade cultural e ensinam como a vida funciona na França, como as eleições são organizadas e como os poderes estão separados.

O coordenador cultural

Ninguém entende melhor a situação dos refugiados do que Nicolas, também refugiado e coordenador social e educacional da France Horizon.

Há muio tempo, ele é um trabalhador humanitário dedicado. Tudo começou quando ajudava a distribuir alimentos para ruandeses refugiados em seu país de origem, a República Democrática do Congo.

“É um prazer enorme ajudar os outros a progredir”, diz. “É o que mais gosto na vida.”

Nicolas foi forçado a fugir de sua nação. Ele procurou asilo político na França e, em 2009, tornou-se cidadão francês.

“Deixar a África e vir para cá é como se mudar de um planeta para outro”, afirma. “Esses refugiados nunca viram neve e nunca moraram na Europa.”

Atualmente, Nicolas está estudando para um doutorado na área da educação. “Para refugiados como nós, capacitação e educação são os únicos caminhos para seguir em frente.”

Os vizinhos

Pierre e Denise moram em frente ao convento. No início, o casal estava preocupado com a chegada dos refugiados. Mas o contato com os novos moradores provou rapidamente que seus medos eram sem fundamento. Agora, eles querem mostrar que os nativos podem participar do acolhimento dos novos moradores.

Na primeira vez que conheceram os vizinhos, os dois franceses deram doces para as crianças. “Tudo correu bem desde então”, diz Pierre.

“Deveríamos levá-los às compras, dar uma volta com eles pelo país”, afirma Denise, sua esposa.

Para Pierre, as crianças são a chave para a integração. Segundo ele, seria melhor se as crianças refugiadas mais novas fossem colocadas na creche junto com as outras crianças da cidade.

A atleta

Duas vezes por semana, Farida, uma jovem de 23 anos da Etiópia, treina no estádio de Saverne, cidade vizinha a cerca de dez quilômetros de Thal-Marmoutier. Mesmo quando chove ou neva, ela corre. Seu sonho é se tornar uma campeã de atletismo.

“Quando eu era mais jovem, ia correndo para a escola”, lembra a refugiada enquanto faz alongamentos na pista de corrida. “Então, fui andando rumo à cidade grande para escapar dos problemas da minha vila. E finalmente cheguei até aqui.”

Um ex-professor de ginástica viu Farida enquanto ela corria e decidiu ajudá-la. A dupla se encontra nas tardes da terça-feira e, embora não falem o idioma um do outro, a paixão pelo esporte supera as barreiras linguísticas.

“Certa vez, treinamos logo depois de ter nevado”, diz a aspirante a atleta. “Não foi um problema nem sentimos frio, pois tínhamos feito o aquecimento corretamente. No futuro, quero ser uma grande atleta e seguir sempre em frente. Eu quero ter sucesso neste novo país e no meu também.”