Ação humanitária

Uma fronteira empobrecida

 Por: Rita Ramos Cordeiro

Um dos episódios mais tristes dos últimos tempos foi ver brasileiros cantando o Hino Nacional enquanto expulsavam venezuelanos de Pacaraima - Roraima.

Não entraremos aqui no mérito da questão do por que pessoas civilizadas chegam ao ponto de fazer isso. É algo muito mais profundo do que simples palavras e julgamentos, mesmo porque, seria leviano emitir opiniões a distância sem saber o que realmente culminou para que acontecesse tal violência.

Apenas para nos situarmos, Pacaraima foi fundada, sendo considerado município no ano de 1995. Sua colonização se deu em sua maioria por nordestinos atraídos pelo sonho de enriquecimento fácil com o garimbo.

Pacaraima tem aproximadamente 12.000 habitantes, não tem infraestrutura, a renda média da cidade é baixíssima.

O saneamento básico é praticamente inexistente. O único hospital na cidade não consegue atender a própria comunidade. Casos de malária, leishmaniose, tuberculose e doenças sexualmente transmissíveis triplicaram.

Com a crise na Venezuela, calcula-se que através da fronteira de Roraima com a Venezuela, a cidade de Pacaraima recebe aproximadamente 300 venezuelanos por dia que vem em busca de socorro.

São pessoas que vem em busca de um recomeço para sair da grave crise de seu país.

Pacaraima tem duas USB - Unidades Básicas de Saúde - o suficiente apenas para atender sua comunidade, de forma precária. Conta apenas com um abrigo para atender os refugiados.

Vamos parar as informações por aqui, para lançar a grande pergunta: Fechar ou não a fronteira de Roraima e Venezuela?

Não podemos comparar o Brasil com os países da Europa que tem recebido milhares de refugiados, mas fechar a fronteira não é a solução.

Penso que devemos sempre nos colocar no lugar do outro antes de fazer escolhas. Dá mesma forma que hoje estamos acolhendo os venezuelanos, um dia os brasileiros poderão precisar de acolhimento no mundo afora.

Julgar e condenar uma comunidade pela violência que não se justifica mas que teve um estopim, é cômodo e insensato.

Está claro que o grande problema por toda esta situação ter chegado a este ponto é a incompetência e ineficácia do governo em agir, que não está dando a prioridade necessária para o Estado de Roraima, que já é naturalmente pobre.

Enquanto milhões de reais estão disponíveis para os candidatos às eleições de 2018, Roraima aos poucos padece e não saí da UTI e Pacaraima é foco no mundo todo por considerarem seus moradores, desumanos.

Desumano é o governo, desumano são as pessoas que apenas olham de longe, mas sempre tem uma palavra pronta para julgar e massacrar. Desumano são as pessoas egoístas que não aceitam acolher pessoas que chegam em busca de socorro, mas também nada fazem nem pelos seus próprios carentes.

Abençoadas Ongs e voluntários que neste momento tão difícil auxiliam.

Este é um momento único que o brasileiro está vivenciando, quando ele, além de suas próprias necessidades e dificuldades, tem também a oportunidade de doar e repartir.

Nestes momentos sempre me vem a mente a situação dos nossos moradores de rua, que mesmo em situações precárias, dividem o pouco que tem para quem os procura.

Será que um dia acordaremos? Vibremos para que este despertar seja pelo amor e não pela dor....