Inclusão Social

Ex-presidiário cria projeto de esportes para crianças da sua comunidade no RJ

FONTE: RPA 

"Se o Jefferson do passado tivesse acesso ao Jefferson do presente, a minha história teria sido diferente."

Jefferson Quirino, 31 anos, foi preso diversas vezes na adolescência por envolvimento com drogas. Nem mesmo a carreira que iniciou na Aeronáutica fez com que deixasse o vício. Dentro da prisão, Jefferson refletiu e decidiu mudar de vida. O carioca da comunidade do Turano, na Zona Norte do Rio, virou professor de surfe e hoje coordena um projeto de esportes para crianças.

Depois de passar a adolescência entrando e saindo do sistema prisional, Jefferson ingressou na Aeronáutica, mas mesmo com a oportunidade de construir uma carreira, acabou retornando para as drogas e foi novamente preso.

“Eu fui preso e esse tempo que eu tive para poder parar e refletir em tudo o que estava acontecendo na minha vida foi simplesmente muito significativo para eu poder chegar a esse estágio de pensar como eu estou desperdiçando minha vida, todas as minhas energias em algo que não agrega na minha vida porque provavelmente se eu saio desse lugar e continuo fazendo as mesmas coisas eu vou morrer. E ao mesmo tempo eu penso o que eu poderia fazer para evitar com que mais pessoas da minha favela passassem pelo que eu passei”, relembrou.

Depois de sair da prisão, ele passou a trabalhar no Jornal do Brasil e lá notou que as notícias sobre a comunidade do Turano quase sempre falavam sobre a violência na favela. Jefferson decidiu mudar esse cenário! Entendeu que poderia fazer isso oferecendo às crianças da comunidade oportunidades que ele mesmo não teve.

“Percebi o quanto era importante que fizesse algum trabalho que realmente desse oportunidade de crescimento, tanto pessoal quanto profissional, mas também de oportunidades a outras opções que não eram oferecidas pra nossa gente”, disse.

Nesse meio tempo, Jefferson ganhou uma prancha de surfe de um amigo, e viu no esporte uma ferramenta para transformar o Turano. “Começo a surfar, começo a me apaixonar pelo surfe, que começa a transformar a minha vida e me mostrar o quanto o esporte é magnífico. Um esporte de elite que eu estava acessando sem custos e eu descubro que ali está a ferramenta de transformação para o Turano”, relembra.

Ele então começa a ensinar surfe para os meninos e meninas da comunidade, na praia do Arpoador. Ainda de maneira informal, mas, percebendo a animação da garotada, Jefferson decidiu criar o “Favela Radical”.

“Eu já tinha mexido com a esperança das crianças e não podia mais parar, e aí surge o Favela Radical”, relembra.

Favela Radical atende 70 crianças

Para convocar as crianças para o projeto, Jefferson bateu de porta em porta. “O que me motiva a ajudar as crianças da minha comunidade a ter uma infância diferente da que eu tive é conhecer as consequências da falta de oportunidade que eu não tive na minha vida. Se o Jefferson do passado tivesse acesso ao Jefferson do presente, a minha história teria sido diferente“, relata.

Depois de juntar amigos, parceiros de outros projetos e instituições, a iniciativa foi crescendo. Hoje, o Favela Radical atende diretamente cerca de 70 crianças com aulas de surfe, escalada e natação, e já estão sendo implementadas aulas de skate e ciclismo.

Os alunos também têm acesso a tratamento odontológico, descontos expressivos para formação superior e participam de eventos como teatro e cinema, tudo por meio das parcerias do Favela Radical. Os próximos passos do projeto incluem a reestruturação da sede, parceria com outras instituições para preparar os meninos para disputar competições profissionais e a realização de eventos esportivos no Turano.

Ajude a educar jovens periféricos para o mercado de trabalho

“No projeto começa o protagonismo da criança favelada que também acessa a todas as possibilidades de forma ilimitada”

Segundo dados do Censo 2010 – IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a favela do Turano tinha 13.500 habitantes, sendo 59% de jovens, ente 0 e 30 anos. Na faixa etária até os 14 anos de idade, a população tem quase o mesmo número de pessoas por gênero. De 15 anos acima, o número de mulheres é superior ao de meninos, mas os garotos de 15 anos em diante são mais alfabetizados. Para Jefferson, isso indica que os meninos ou morrem ou são presos quando chegam perto da maioridade, enquanto as meninas são mães muito cedo e têm que abandonar a escola.

“O ambiente onde eu vivia, a atmosfera era tão forte e influenciadora, e ainda é nos dias de hoje, que eu sempre acreditei que a única opção que eu tinha era acreditar em tudo aquilo que a sociedade dizia que eu já seria. A gente não tinha um projeto social que pudesse estar nos orientando ou nos guiando até uma oportunidade de trabalho, uma oportunidade de um curso, uma oportunidade de uma prática de esporte. Em um ambiente hostil como é uma favela, hostil no sentido da vulnerabilidade social, de ter como referência de sucesso o traficante, isso daí é uma combinação muito potente para dar errado.”

O Favela Radical nasce para mudar essa realidade. “É ressignificar a favela, tirar da invisibilidade social. No projeto começa o protagonismo da criança favelada que também acessa a todas as possibilidades de forma ilimitada”, finalizou.